Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

20 de março de 2010

Acordo Difícil

Vara de família. Audiência de conciliação, instrução e julgamento presidida pelo Dr. Kennedi Braga. Sentados à mesa da sala de audiência um casal já beirando os sessenta anos. Eram ainda casados, mas separados de fato recentemente. O motivo era de adultério. O marido havia trocado a esposa por outra vinte anos mais nova.
O homem tinha um aspecto taciturno, cotovelo sobre a mesa apoiava o queixo em uma das mãos. A mulher, entretanto, estava visivelmente contrariada e ansiosa, remexendo-se constantemente sobre a cadeira.
Buscando a conciliação, o magistrado começou mais ou menos assim:
- Senhores, vamos tentar fazer um acordo e acabar logo com esse impasse?
Nisso, a mulher não pode esperar nem um segundo sequer. Foi logo intervindo:
- Doutor, eu vivi por trinta e sete anos com esse homem!
- Eu sei minha senhora, mas no momento estamos tentando um acordo...
- Mas doutor, só eu sei o tudo o que passei!
Mantendo a calma, prosseguiu o juiz a falar, gesticulando de forma amena, para que mantivessem a tranqüilidade:
- Vamos com calma que tudo acabará bem. Agora vejo que a senhora está pedindo cinquenta por cento de alimentos ao seu esposo e...
- EX-ESPOSO!
- Está certo. Mas é que concedi alimentos provisórios no percentual de trinta por cento e... – Logo foi interrompido novamente pela requerente que, efusivamente, balançava os braços enquanto bradava:
- Doutor eu mereço muito mais. Não é brincadeira conviver com esse homem por TRIN-TA-E-SE-TE ANOS – enquanto brandia o polegar direito.
- Minha senhora, gostaria que... – e a mulher não deixava a audiência transcorrer.
- Não tem acordo comigo, não! Não aceito menos que isso. E o sofrimento nesses trinta e sete anos, hein?
O juiz, ainda tentando transparecer paciência, ponderou.
- Eu entendo sua insatisfação. Acontece que a jurisprudência não acei...
- Não! Só eu sei o que passei! – enquanto batia no peito com força – e prosseguiu:
- Doutor, não foram trinta e sete dias. Não. FORAM TRIN-TA-E-SE-TE, TRIN-TA-E-SE-TE ANOS!
- Mas a senhora poderia me deixar continuar? – apontou já com uma certa irritação o juiz. O homem continuava impassível. Apenas colocava às mãos sobre o rosto. Queria apenas que aquilo tudo terminasse o mais rápido possível.
- Tudo bem, tudo bem – disse a mulher, enquanto batia com os dedos nervosamente sobre a madeira da mesa, num ritmo nervoso e compassado.
- Portanto, gostaria de continuar dizendo que é difícil a senhora conseguir o que deseja. Procure falar com seu advogado que aí está. Ele poderá orientá-la, também. O causídico mal se dirigiu para falar com a sua constituinte e ela foi logo branindo:
- Não! Não vai ser essa mincharia! Só eu sei, doutor. Convivi Trinta e sete anos com esse cachorro! Só eu sei, só eu sei o que passei nesses trinta e sete anos... – Foi então interrompida pelo juiz.
- Tudo bem. Posso até concordar com o percentual que a senhora está pedindo. Mas a senhora vai ter que pagar uma boa indenização a este homem – enquanto apontava para a silenciosa parte ré.
Indignada, a mulher colocou as mãos à cintura e perguntou:
- Doutor, mas por quê?
- Porque eu estou aqui há apenas cinco minutos tentando um diálogo com a senhora e não consigo. Estou começando a me irritar com isso. Imagine esse senhor, que passou heróicos trin-ta-e-se-te anos com a senhora!
Silêncio completo de um minuto na sala de audiências.
Dez minutos depois, o acordo no percentual de 15% estava assinado...

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