Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

20 de março de 2010

Incompetência Transcendental

Há mais de vinte anos, numa Comarca próxima a Natal, existia um juiz antigo, prestes a sair pela aposentadoria compulsória, cujo pavio não era dos mais longos. Conhecido pelo temperamento irascível e imprevisível, era temido entre os causídicos da região e considerado por todos uma pessoa de difícil trato.
Havia, entretanto, um colega magistrado aposentado que costumava advogar pela comarca e aturar os ataques de mal-humor do magistrado. Eram amigos de longa, longa data.
Sempre calmo, mas insistente, o advogado foi algumas vezes pedir ao amigo e veterano magistrado para que julgasse um determinado feito. Há meses os volumosos e empoeirados autos do processo descansavam em berço esplêndido, no armário do gabinete do juiz. Uma vez que as súplicas verbais – diga-se de passagem, muitas – não foram atendidas, o advogado começou a redigir diversas petições, sempre implorando julgamento da causa.
Numa dessas vezes, o advogado, já cansado de argumentos jurídicos, resolveu “apelar”. E após invocar uns trezentos santos, rememorar todo o calvário que o feito já havia percorrido, terminou em termos mais ou menos assim, a petição de quatro laudas atravessada nos autos: “por misericórdia, pelo amor a Deus, pela graça divina, imploro a Vossa Excelência para que julgue a causa...”.
Ao começar a olhar aquele petitório, onde quase todo o santuário católico era nominado, sua feição enrubesceu. Chamou o escrivão em brados que ecoaram e estremeceram todo o prédio do fórum. E com a delicadeza de sempre, perquiriu:
– Ô Firmino (nome fictício), o que danado é isso? – apontando, com a mão direita espalmada, para os autos que repousavam passivamente abertos e indefesos, como aquela rãzinha das aulas de anatomia.
O pobre rapaz apenas falou, olhando para as folhas do processo, encardidas pelo tempo e pelas traças:
– É mais uma petição do doutor (disse o nome do advogado). Pediu para o senhor sentenciar a causa. É que já tem mais de ano que está para julgamento... – terminou a frase quase sussurrando de medo.
– É... – disse o magistrado, com a boca antreaberta e olhando pela lente dos óculos bifocais, enquanto examinava o conteúdo do requerimento. Pelo seu silêncio, parecia, destacou o escrivão, que finalmente havia se convencido das implorações do causídico. E continuou por uns segundos, até que parou por um instante, fez um ar de surpresa, e prosseguiu, lendo em voz baixa o texto:
– “Por misericórdia, pelo amor a Deus, pela graça divina...”, era só o que faltava!
E após um átimo, já tomado de fúria, pegou sua caneta Parker e decidiu em rápidas palavras, quase rasgando o papel, enquanto soletrava em alto e bom som:
“Vis-tos, etc. De-cla-ro-me in-com-pe-ten-te! Re-me-ta-se ao Pa-pa!”.
E assim terminou uma amizade de longos anos...

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