Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

20 de março de 2010

O Conto do Alcoólatra

— Cinco da tarde! Finalmente!
Passos rápidos na escada. Sexta-feira.
Aquele poderia ser só mais um dia na vida de Wagner Arcoverde. Mas não foi.
Como era costume de há muito, após o fechamento do escritório o veterano contador saía com destino certo: o bar “Bodeguito Cabarro”. “Tomar uma gelada pra relaxar”, era o que sempre dizia, se referindo a bebedeira diária. Não obstante os apelos da família, que também viraram rotina, era sagrada sua visita ao Bodeguito.
Chave do carro na mesa do bar, carteira, uma leve inclinação do troco para trás da cadeira. Estava preparado.
— Clodoaldo, manda uma mofando!
— Doutor, e uma calabresa?
— Trás, trás.
Homem de pouco papo no próprio lar, quando Wagner se sentava numa mesa de bar, após três ou quatro garrafas de cerveja, mudava de figura. Se tornava falastrão, às vezes ensaiava até uma cantoria. Nunca admitira seu vício, nem sequer nas suas raras confissões ao padre Marcos. Quanto aos apelos familiares, tinha sempre uma resposta pronta na ponta da língua. — Não sou dominado. Bebo quando quero e paro quando quero! Sempre que perdia um cliente, bebia pra esquecer. Quando algo de bom acontecia, era o motivo que faltava. Era rotina chegar tarde em casa.
Mas aquela noite seria diferente. Não porque fosse uma sexta-feira, dia dos mais esperados por todos os que passam uma semana estafante de obrigações. Também não seria pelo fato de chegar sóbrio em casa.
— Clodoaldo — Disse ele, já numa dicção apastelada, bem típica dos ébrios — Passa a régua!
— Treze e cinquenta, doutor Wagner.
— Quinze. Taí.
O bar que frequentava ficava ainda no centro da cidade, naquelas ruas paralelas às principais avenidas comerciais. Seu carro, um voyage 91, verde escuro, tinha sempre um albergue seguro sob as copas de uma castanheira. Sabe Deus quantas vezes esse homem conseguiu chegar à salvo, dado o estado de embriaguez. A esposa, revoltada, certa feita o deixou dormir na garagem mesmo, pois em algumas ocasiões era necessária a ajuda dos filhos ou dela mesma para retirá-lo do automóvel.
Volta para casa: Zuuum! Fachos de luzes. Vista nublada. “Vou conseguir... mas que droga de câmbio...” pestanejava ele. Manter-se acordado era uma verdadeira batalha, já que as pálpebras pesavam... O trajeto até em casa era de uns quinze minutos, mas àquela hora da noite (já passava das dez) o trânsito era escasso, o que facilitava sua chegada sem maiores percalços.
Chovia. Sinal vermelho. Um estampido. Um vulto. O carro balança repentinamente. Pé no acelerador foi a única coisa que veio à cabeça de Wagner. Constatação: “Meu Deus, algo de grave aconteceu”.
Tomado repentinamente pelo susto, ficou desperto. Rodou por mais uns minutos, à esmo. Tentou passar pelo local do fato, mas teve medo de ser reconhecido. Resolveu então parar o carro em uma rua deserta e verificar na lataria o ocorrido. Farol direito quebrado, o capô estava amassado e faltava um dos limpadores do parabrisa. Já sabia: “Atropelei um cara... E agora? Será que anotaram a placa? Foi na Avenida dos Tamoios. Ah, se eu tivesse vindo pela Vinte e Dois de Agosto esta m. não teria ocorrido. E o pior, o que dirão meus filhos em casa? Já estou imaginado Gabriela chorando, a me dizer: “pai, bem que eu te avisei. Isto ia acabar em problemas mais sérios”. Se descobriram que fui eu a polícia já deve estar indo para lá. Foi apenas a três quadras de casa. Muito perto. E ainda estou tonto”. Toda essa divagação aconteceu em meio à chuva. Wagner estava anestesiado pelo pânico. Com um zumbi.
Agora, o que fazer? Tentou raciocinar: “Vou dar um tempo. Não posso ficar andando com o carro amassado. Já devem ter passado a informação às unidades da polícia. Estão me procurando, com certeza”. Um sentimento de abandono. Um desespero incontinenti, que rói por dentro.
“Posso alegar que o sinal estava aberto, que o cara atravessou correndo para escapar da chuva, posso prestar queixa do roubo do Voyage. Mas se der errado?”. Sair nos jornais como “Atropela um pai de família, deixando cinco filhos órfãos”. “Seria o meu desastre...” Reflete o beberrão, num misto de autopiedade e preocupação.
Porém, o que mais impressionava em Wagner era sua própria ausência de sentimento pelo atropelado. Naquele momento de aflição todas as suas forças estavam coesas visando se safar. Sua saída era pensar que “o que aconteceu, aconteceu”. Sua sensação era  a de que o destino havia lhe aplicado uma peça. Por que ele e o atropelado estava no mesmo local naquela noite fria e tempestuosa?  O sinal, ah, verde, vermelho, não importa... Tudo aconteceu por acaso. “Foi um incidente. O destino. E aconteceu comigo”.
Passa um casal apertando-se sob um guarda-chuvas preto. Há uma breve troca de olhares desconfiados. “Nossa! Já são quase meia-noite. Mara já deve estar preocupada”.
O costumeiro para Wagner e a família era sua chegada por volta das dez da noite. A essas horas a família toda já estaria preocupada. Tinha que tomar uma atitude. Resolveu, passado boa parte do efeito do álcool, ligar à cobrar para casa. Não... Era melhor não levantar suspeitas. Resolveu voltar discretamente. O atropelamento pode não ter tido testemunhas ou, com aquela forte chuva, quem estivesse presente certamente não conseguiria visualizar a placa. Contudo, não custava nada chegar em casa de taxi. Não mostrar o repentino amassão era essencial. Deixaria o carro numa tranquila praça próxima a oficina de Damião, um velho conhecido, tomaria um taxi na Avenida da Integração, e ao chegar em casa, daria a desculpa de que o carro deu prego. Não parecia tão difícil.
Pôs, então, o plano em prática.
Aproximando-se  de casa, quase a uma da manhã, percebeu a rua tranqüila. Por um breve instante teve dúvidas sobre o ocorrido. “Pode ter sido um cachorro daqueles grandes, na vizinhaça tem muitos pastores alemães”.
Ao girar a chave da porta de entrada, de súbido, sua mãe, que morava com ele, abre-a, tomando-se em prantos.
— Filho, filho, aonde você estava?
— O carro quebrou.
— Meu Deus, você não sabe o que aconteceu... Saíram todos desesperados.
— Valha-me! O que houve?
— Há umas duas horas, quando Gabriela voltava da casa de uma amiga, um carro desgovernado a atropelou, lá na Tamoios, não prestou socorro e a deixou estirada, agonizante, no asfalto! Meu Deus, a única netinha que eu tinha!

2 comentários:

  1. Meu Deus, estou com as pernas bambas.
    Chorei !

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  2. A bebida alcoólica só trás dor e sofrimento para ambas as partes é triste mas é real.

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