Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

20 de março de 2010

O Vale

O caso já tem muitos anos. Audiência de instrução. Oitiva de testemunhas arroladas pela acusação. À máquina de escrever, digitando os termos da audiência, estava o então escrivão, um sujeito carismático e boêmio, que tinha sempre uma pitada de bom humor em tudo que dizia. Quando resolvia trabalhar para valer era competentíssimo.
Durante seu depoimento, a testemunha se referiu a uma pessoa que teria presenciado os fatos objeto do processo. O caso versava sobre o “importante” furto de um saco de limões. Uma daquelas incongruências que ainda insistem em permanecer no nosso código penal. Imaginem só o tédio na sala de audiências...
A certa altura do depoimento, então, o juiz perguntou para a testemunha:
− Bem, senhor Joaquim, o senhor falou que Antônio Baltazar presenciou o furto. Mas o senhor o conhece? Sabe onde ele mora?
− Doutor, não o conheço muito bem. Mas sei que ele é dono de um bar.
Sem tirar os olhos da máquina de escrever, dedos rápidos nas teclas, Cacá acrescentou em alto e bom som:
− Se é dono de bar é gente boa... − O magistrado o olhou com um ar de resignação, meneando a cabeça, com uma ponta de riso, diante da figura que arranjara para lhe bater os termos de audiência.
Depois de um breve silêncio, o escrivão completou, com uma certa malícia no rosto, digna daqueles com maestria na vida boêmia:
− Com um limãozinho do saco, uma boa cachaça e se o dono aceitar pendurar um “vale”, doutor, melhor ainda!

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