Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

3 de abril de 2010

Interrogatório ou Santa Inquisição?

Há quase trinta anos, numa comarca do sertão nordestino, havia um juiz - hoje já aposentado - que era o terror dos réus, numa época em que os crimes mais comuns eram pequenos furtos.
Irascível, grosseiro e sarcástico, era também famoso pelas raras absolvições, e penas duras e longas. Havia uma lenda de que um réu, certa vez, urinou nas calças, de tão acossado.
Dia de interrogatório. Cadeia pública da cidade. O acusado, jovem de pouca idade que resolvera furtar a criação de um vizinho, preparava-se para ir a sessão de tortura psicológica. Os policiais que o coduziriam ao Fórum pioram o quadro, dramatizando histórias nem sempre verídicas sobre o magistrado. Pintou-se a verdadeira imagem do demônio.
O acusado entra algemado e tremendo na sala de audiência.
– Senta ele ali – disse o juiz, com voz grave, nem se dignando a olhar para o pobre coitado.
O advogado da prefeitura, tendo um rápido papo com o preso, perguntou:
– É verdadeira essa acusação, Severino?
– É, doutor...
– Então nem adianta inventar história. Melhor não irritar o homem aí. Só assim tua pena vai ser mais baixa. Colabore... Responda tudinho, completo.
– Tá... – disse o acusado, com voz trêmula.
Ainda antes de começar a verdadeira sessão da Santa Inquisição, o magistrado folheou rapidamente os autos do processo... E deu a primeira olhada furiosa para o infeliz que sentava no banco dos réus.
– Olha aqui. Nem venha fazer gracinha pra cima de mim, entendeu?
O réu, assustado, meneou a cabeça timidamente, em sinal afirmativo.
– Entendeu? Fala, seu cabra! Responde!
– Si... Si... Sim, doutor...
– Eu vou perguntando e você vai completando.
– Tá.
– Seu nome é Severino Francisco da Silva... – disse lendo em voz baixa. E perguntou:
– Nome do pai?
Estavam ainda na qualificação. Nem sequer começara de fato a audiência, mas o coitado do acusado já titubeara de tanto nervosismo:
– “Hã”?
– “Hã” o quê? Completa, rapaz! Nome do pai?!
O acusado, que certamente estava rezando para que aquele suplício terminasse, cometeu um ato falho ao entender errado a pergunta, e emendou:
– Do Filho e do Espírito Santo?!

Um comentário:

IDENTIFIQUE-SE E FIQUE À VONTADE PARA COMENTAR. SOMENTE COMENTÁRIOS ANÔNIMOS NÃO SERÃO ACEITOS.