Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

20 de abril de 2010

Joaninha e Chupão


Audiência preliminar do juizado criminal em uma das comarcas pelas quais passei. Comigo na sala estava o amigo e então Promotor de Justiça Rosmar Antonni Alencar, hoje Juiz Federal.
Como de costume, eu deixava os autos do processo com o Ministério Público para que fizesse a oferta de transação penal.
Entraram na sala as partes. Uma delas o ofendido, jovem de vinte e poucos anos, de cara amarrada e parecendo bastante chateado. Cruzou os braços e ficou olhando para os lados. Como autor do fato, sentou-se à sua frente um sujeito também jovem, com ar andrógeno, cabelos longos, vestimenta chamativa, trejeitos e voz afeminados. Intitulou-se “Joaninha”.
Rosmar pegou o processo e começa a analisá-lo. O tempo passa... e nada. Fez cara de quem não estava entendendo. Intrigado, questionei sobre o que ocorria nos autos, ao que me devolveu o processo, perguntando:
- Excelência, poderia ler para todos nós o que tem aí? Não consegui entender os fatos.
Recebendo o processo em mãos, inocentemente me pus a ler em voz alta o que estava narrado no boletim de ocorrência, nos seguintes termos:
“O ofendido estava bebendo numa mesa, acompanhado de Joaninha e de outras pessoas, na vaquejada da cidade. Lá pelas tantas o ofendido ficou muito embriagado e precisou ir ao banheiro. Com medo de que alguém furtasse sua carteira, pois estava cambaleando, colocou-a em cima da mesa e pediu que Joaninha a vigiasse. Quando voltou, a carteira não estava mais lá. O restante das pessoas da mesa tinha ido embora. O ofendido perguntou a Joaninha onde estava a carteira. Este respondeu que só a devolveria se o ofendido fosse até um matinho próximo, pois a carteira estaria lá. O ofendido, desesperado para reaver a carteira com seus documentos, o acompanhou. Chegando lá, os dois muito embriagados, o ofendido insistiu para que o autor do fato devolvesse a carteira. Joaninha então baixou o zíper e colocou seu membro para fora, dizendo que só devolveria a carteira se o ofendido fizesse uma sustentação oral... Desesperou-se, pois nunca tinha feito aquilo. Mas diante da coação, e querendo a carteira de volta, submeteu-se. Quando “acabou tudo”, Joaninha, para a revolta do ofendido, não devolveu a carteira. Indignado, procurou os policiais e contou tudo que havia acontecido. Ao invés de prenderem logo Joaninha, começaram a rir e a chamá-lo de “Chupão”. Numa revista, nada foi encontrado com Joaninha. A notícia se espalhou e agora toda a cidade o chama de Chupão. O ofendido não é homossexual. Quer Joaninha punido e uma solução para isso, pois não agüenta mais o apelido.”
Quando olhei para o promotor, estava cobrindo o rosto com os autos de um outro processo e morrendo de rir.
Perguntei ao ofendido:
- Qual a solução que o senhor imagina para esse caso?
Para completar a sina do rapaz, o defensor dativo acenou para mim e emendou, dirigindo-se ao ofendido antes dele responder:
- Quer um conselho para solucionar isso?
- Sim, doutor – disse o ofendido.
- Mude de cidade, meu filho...

12 comentários:

  1. hahahaha! que situação, hein? mas rosivaldo, você sempre deixa o suspense no ar! Agora te pergunto: como terminou isso??? ;P

    ResponderExcluir
  2. Heheheheh. Estou até vendo a cara de Rosmar...

    ResponderExcluir
  3. Também "to entendendo" nada! rs Vou acompanhar o desfecho desse processo!

    ResponderExcluir
  4. O caso era tão inusitado que o delegado, sem saber qual tipificação do fato colocar, encaminhou para o Juizado Criminal. Não havia prova do furto. Era a palavra de um bêbado contra a do outro. Em juízo Joaninha simplesmente negou tudo. Faltou justa causa... Arquivamento.

    ResponderExcluir
  5. ahhhhhhhhhhhhhhh!!! pensei que teria mais emoção!!!

    ResponderExcluir
  6. Anna Claudia Sabino21 de abril de 2010 13:02

    ahuhuahuahua!! Hilário!

    ResponderExcluir
  7. Minha nossa como sempre vc com seu jeitinho de ar misterioso hein bárbaro, porém imagino a cena teatral nessa audiência viu.. Abraços. Ramona Rosselline

    ResponderExcluir
  8. Hahahahaha!! Onde eu estava nessa hora?
    Quase não paro de rir agora ao imaginar a cara de Rosmar.
    E quem era o defensor? hahaha
    Realmente a solução para o ofendido seria "se mandar" de Pau dos Ferros.
    Coitado...
    Lorena.

    ResponderExcluir
  9. kkkkkkkkk,
    mudar de cidade nao vai adiantar muito, tem que mudar de vida, parar é de beber, kkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
  10. HILÁRIOOOO....
    isso existiu mesmo? kkkkkkkkk

    ResponderExcluir
  11. Juro que se eu soubesse, que um juíz criminalista se divertia tanto assim, olha, acho que eu seria a melhor de todas, kkkkkkkk. Brincadeira, sei como é sério o trabalho, mais diante desses "causos" está fora da capacidade do ser humano, que queimou neurônios estudando, até chegar ao cargo,de tamanha importância para a população em geral, conseguir manter a seriedade, só sendo ator, que não é o caso... Então, quando a gente lê, que imagina a cena, O juíz, o promotor a audiência, e o "promotor" que não entendeu e você lendo em voz alta não dá kkkkkkkkkkkk é de matar de rir mesmo! Rosivaldo você precisa escrever um livro só com esses casos. Parabéns mais uma vez sou sua fã. Sucesso!

    ResponderExcluir

IDENTIFIQUE-SE E FIQUE À VONTADE PARA COMENTAR. SOMENTE COMENTÁRIOS ANÔNIMOS NÃO SERÃO ACEITOS.