Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

23 de maio de 2010

Amigo da Onça


Estava em meu gabinete, numa das comarcas em que trabalhei, quando alguém bate à porta.
- Pode entrar!
Eis que surge Chico Mola, um sujeito magricela e acelerado que conheci numa cidade próxima, fazendo trabalhos esporádicos na fazenda de um desembargador amigo, pois a bebida e as farras não o tornavam apto a um trabalho rotineiro. Assim, tornou-se uma espécie de “cow-office-boy” e freelancer, pois pagava contas e resolvia questões de interesse da fazenda nas cidades vizinhas.
Era um tipo diferente, com uma voz engraçada, parecida com a do personagem Salsicha, do desenho animado Scooby Doo.
Mas naquela tarde seu rosto tinha uma expressão grave. Intrigado, perguntei:
- O que houve, Chico Mola?
O rapaz começou a chorar e a indagou se eu era seu amigo. Disse que sim.
- "Dotô", então libera minha moto. A documentação "tava" atrasada e o delegado me pegou na entrada da cidade.
Foi aí que percebi que ele havia bebido. Disse-lhe que teve sorte de não ter sido preso e que a melhor coisa que o delegado tinha feito era reter a moto, pois ele poderia se machucar ou machucar alguém guiando naquele estado. Então ele começou a reclamar da vida e a chorar, que sua mulher não gostava dele, estava fazendo bicos como auxiliar de pintor e que era maltratado pelo seu chefe. Percebendo que ele já começara a abusar de minha paciência em ter vindo conversar naquele estado, perguntei se tinha algo mais. Foi aí que ele emendou:
- Então me empresta um dinheiro? – perguntou entre soluços. Surpreso com o pedido, resolvi seguir em frente e ver no que dava.
- Quanto?
- Duzentos e trinta.
- E o senhor está devendo dinheiro a quem? – questionei procurando saber a origem do débito.
- Bem, "Dotô"... Tô "deveno" cento e vinte a Zé Arigó.
- Zé do Bar? – blefei, confiando na minha intuição.
- É esse cabra "mermo". O "Dotô" conhece?
- Claro... E o resto?
- Tonho de Zé Paulo, devo mais cinquenta conto.
- É aquele que tem um bar que vende peixe frito? – Novo blefe.
- Não, "Dotô". Lá só vende "51" e "ceuveja". Mas a dívida lá foi só no baralho.
- Sei... E o resto? – Perguntei, ainda conseguindo me controlar.
- "Dotô", sabe aquele "barzin" que tem lá na saída de Rafael Godeiro?
- Seu cabra sem-vergonha. Como é que vem aqui perguntar se sou teu amigo e me pede para cometer uma arbitrariedade e te emprestar dinheiro pra pagar dívidas de bar e de jogo? Dou dez segundos para você sair do meu gabinete ou eu mesmo o porei pra fora, seu amigo da onça!
Pense num sujeito ligeiro na carreira!

2 comentários:

  1. Estou adorando seu blog, vim através do blog de Renata, o Camomila, mas agora já coloquei o seu na minha lista. Obrigada pelos ótimos posts.

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  2. É como diz um radialista de linguajar bem coloquial em minha cidade (Guajará-Mirim/RO): "- ... Peeeeense numa disparada!"
    Muito Bom o Blog doutor!
    Grande abraço!

    Thiago Morais.

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