Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

17 de maio de 2010

Estranhamento, Preconceito e Orgulho de Ser Brasileiro

"Esperou-se, em vão, durante  os últimos anos o “grande erro” que faria cair a máscara daquele que nunca poderia ter sido! E a ordem natural estaria restabelecida. A grande mídia teve e tem papel crucial de reforço dessa negação e expectativa, pois reverbera pela classe média o sentimento geral das camadas privilegiadas que sofrem esse estranhamento. A palavra que melhor define esse estado de coisas é preconceito."



 
Estou de férias. Semana passada fui ao Marrocos e senti orgulho de ser brasileiro.
Umas das excursões que fizemos foi para o deserto do Saara. Havia gente de todo canto do mundo. Durante o trajeto cada um dos turistas do ônibus se apresentou, dizendo o nome e a nacionalidade. Quando chegou nossa vez eu disse que eu e minha noiva éramos brasileiros e, para nossa surpresa, recebemos, espontaneamente, uma salva de palmas. Fomos os únicos!
Com o passar do tempo fui interagindo e procurando saber qual a imagem que tinham aqueles estrangeiros do Brasil. Em particular os europeus salientaram a pujança econômica atual, a copa e as olimpíadas, embora um deles ainda tenha falado em favelas e em pobreza. O nosso presidente é muito mais conhecido e respeitado aqui do que eu imaginava. Um holandês elogiou sua postura na luta contra a fome e em defesa da paz. Houve curiosidade em relação à história de vida dele por parte de um casal de Hong Kong.
Quando voltei a Portugal, fui fazer uma pesquisa nos principais veículos de comunicação daqui. Todos salientando a liderança do nosso Chefe de Estado nas negociações com o Irã. Bem diferente do negativismo que apregoa a grande mídia brasileira, oriunda da região mais rica do nosso próprio país.
Passei a refletir sobre esse nordestino que migrou num pau-de-arara para o Sul Maravilha, em busca de oportunidades. Tenho um primo que morou no Itaim Bibi, na Zona Sul de São Paulo e recordo que todos os porteiros do prédio eram nordestinos. Na vizinhança era bem fácil reconhecer em cada uma das casinhas que abrigavam a portaria dos edifícios de luxo aquele biotipo mestiço, baixo e de cabeça-chata, que se expressava com constantes erros de concordância. Tendo em vista os estereótipos que povoam nosso imaginário, bem poderia ser hoje o nosso presidente um daqueles porteiros... Por isso algo não estaria no lugar. No lugar de sempre. No lugar-comum. Talvez isso explique o estranhamento de boa parte das classes média e alta, principalmente no eixo Sul-Sudeste.
Embora o discurso que assumimos é o de que não temos racismo e nem preconceito contra grupos no Brasil, é indisfarçável o desconforto a muitos senhores e senhoras letrados, intitulados “doutores”, porque um reles torneiro mecânico – ainda por cima um nordestino migrante – represente o Estado brasileiro. O nosso imaginário talvez ainda não esteja preparado para isso: a figura de um líder como ele, um outsider. Nesse ponto vejo em parte o mesmo acontecendo com Obama em relação à grande mídia conservadora americana. O caminho mais fácil, então, é a negação dos seus acertos, aclamação dos inevitáveis erros e a projeção nele do sintoma da quebra dessa idealização, reforçando o estigma, ainda que racionalmente deslocado da realidade.
Esperou-se, em vão, durante  os últimos anos o “grande erro” que faria cair a máscara daquele que nunca poderia ter sido! E a ordem natural estaria restabelecida. A grande mídia teve e tem papel crucial de reforço dessa negação e expectativa, pois reverbera pela classe média o sentimento geral das camadas privilegiadas que sofrem esse estranhamento. A palavra que melhor define esse estado de coisas é preconceito.
A quebra de alguns paradigmas dos padrões de cultura que compramos dos países centrais é bom para crescermos enquanto indivíduos e, principalmente, nação. Fortalecerá nossa identidade, para seguirmos nosso próprio caminho, independentes, finalmente, do julgo da cultura e dos interesses dos Estados mais poderosos.
E esse homem representa não só o biotipo, mas a identidade da maior parte do nosso povo e é a vitrine do nosso país no mundo. Reconheço o papel dele nos aplausos que recebemos no ônibus.
Os americanos são muito orgulhosos do seu país, o mesmo que causou a grande crise mundial atual e que mantém a vergonhosa prisão de Guantânamo, invadiu o Afeganistão e já dizimou quase um milhão de iraquianos, na maioria esmagadora, civis. Por que não podemos ter orgulho de ser  brasileiros? Eu tenho!

5 comentários:

  1. Compartilho do mesmo orgulho. SEMPRE!

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  2. Também compartilho desse orgulho.
    Vou aproveitar e compartilhar o post no Facebook.
    Orgulho também de ser nordestina.

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  3. Rosivaldo, parabéns por esse texto! inteligentíssimo! Por incrível que pareça a mídia de massa continua desempenhando com perfeição seu papel segregador ao enfatizar em suas novelas e programas humorísticos que as empregadas domésticas e serviças geralmente são negros/mestiços e com sotaque nordestino.

    Para nosso conforto, posso afirmar que no mundo dos negócios esse ponto de vista já é bem diferente, onde o nordeste é retratado pelas literaturas especializadas como o grande coqueluxe empreendedor do Brasil, sendo a região mais promissora para investir e fazer dinheiro. O trabalhador e consumidor nordestino começa a receber seu justo reconhecimento, o que não é mostrado em hipótese alguma por nossa ignóbil TV. Aliás, se tirássemos os nordestinos que trabalham na Globo, certamente não sobraria elenco nem para uma mini-série... acho que esse povo merecia mais respeito e menos menosprezo pelos produtores.

    Eu me envergonho de muitas coisas mal feitas de nossos governantes, mas não posso negar que como você, também me orgulho de ser brasileiro.

    Grande abraço!
    Adriano Berger
    http://nanoberger.blogspot.com

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  4. olá! tb estou de férias e estou em Londres. toda as vezes que dizemos que somos brasileiros, temos uma boa resposta. seja do " oh lá lá!" a " footbol,sun!" Bem, as mulheres ainda sofrem com o estereótipo que temos fora do brasil, mas tomara que isso acabe, da mesma forma que outras visões deturpadas que tinham de nós. abraço e boas férias!

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  5. eu naum achei nda de enteresante nisooo

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