Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

14 de julho de 2010

O Opala Velho


Numa pequena cidade do Alto Oeste do Rio Grande do Norte uma dupla de forasteiros começou a dar uma volta pelo centro. Eis que entraram em uma rua e lá no seu final, em frente a um bar lotado, depararam-se com um Opala caindo aos pedaços e literalmente atravessado na pista de rolamento, de modo a impedir que outros carros pudessem prosseguir.
O forasteiro que dirigia a caminhoneta olhou para trás. Teria que dar marcha ré por uns cinquenta metros. Não tinha jeito. Era mesmo seguir em frente. Então ele desceu e se aproximou do Opala para pedir ao motorista que afastasse seu veículo um pouco.
Olhando em direção ao seu interior, viu que o motorista não estava e um sujeito todo vomitado se acostava impassível no banco do passageiro. Mas se mexia de tão bêbado. Ninguém do bar em frente deu atenção ao desconhecido. Estavam a ouvir e dançar músicas de forró em alto volume.
O forasteiro voltou para a caminhoneta, conversou com o outro e buzinou para que alguém retirasse o veículo. Nada. Esperaram pacientemente mais um pouco e novamente o da direção buzinou. Um sujeito que estava em uma das mesas ergueu o braço e fez sinal para que esperassem. Levantou-se, mas continuou a conversar divertidamente com um dos companheiros de bebedeira. O motorista forasteiro então passou a buzinar ininterruptamente.
Eis que o sujeito olha e sai da mesa carregando seu copo de cerveja, dirigindo-se vigorosamente para o veículo dos dois desconhecidos.
Demonstrando irritação com a insistência do desconhecido em buzinar, foi logo se aproximando e sacando a carteira.
- O que é que é?
- O senhor precisa tirar o carro do meio da pista. Não pode interromper o trânsito.
- Pois não vou tirar não!
- Não vai tirar por quê?
Eis que o homem jogou o copo no chão, abriu a carteira e mostrou um brasão e a identidade funcional, em que constava ser sargento da Polícia Militar:
- Sabem com quem estão falando? Eu sou o delegado dessa meeeeeeerda aqui! - gritando arrogantemente, enquanto balançava na frente dos forasteiros a prova de sua autoridade:
O forasteiro que dirigia então disse:
- Pois vai tirar sim. E sabe por quê?
- Por quê? – Perguntou o sargento em tom desafiador.
- Porque se você é o delegado, eu sou o juiz dessa bosta e esse carona aqui é o promotor! Você vai pedir a alguém pra tirar o carro imediatamente, porque você não tem condições de dirigir, e amanhã às nove horas irá comparecer ao fórum. Se você faz isso aqui, imagino o que mais não fará... Vou chamar o comandante do destacamento. Quero vê-lo amanhã dando carteirada nele também!
Eram o juiz e o promotor recentemente designados para responderem pela comarca que se encontrava vaga, bem como pelas eleições gerais que se aproximavam. Como nunca tinham estado na Comarca, não conheciam as cidades que faziam parte da também Zona Eleitoral, por isso resolveram fazer o reconhecimento da região.
Tremendo e gaguejando, o delegado tentou se explicar, colocando a culpa no pobre bêbado vomitado que inocentemente dormia na poltrona do passageiro.

6 comentários:

  1. hahahahaha... carteirada fajuta essa, hein? :P

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  2. Dr, essa foi boa!

    Eu é que não queria estar na pele (situação...) desse delegado.

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  3. Danielle,

    Digamos que o tiro saiu pela culatra...

    Nilton,

    Nem eu gostaria também. Que desmoralização, né? É nisso que dá confundir autoridade com autoritarismo...

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  4. Sempre me divirto com essas histórias sobre "carteirada". Uma delas foi do ministro Ayres Britto julgando um habeas corpus (acho) impetrado pelo Celso Russoman no qual qualificou a "carteirada" como fenômeno jurídico rs

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  5. Adoro quando esses maus policiais, tanto civis quanto militares) se dão mal ao tentar abusar de seu poder achando que não há ninguém acima deles. Muito bem feito!!!

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  6. Adoro quando esses maus policiais, sejam civis ou militares, se dão mal quando tentam abusar de seus cargos e não lembram que há gente com mais poder que eles, e que todo mundo responde a alguém. Achei muito bem feito!!!

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