Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

18 de outubro de 2010

FURANDO O BALÃO DA ARROGÂNCIA



Numa das comarcas pelas quais passei no alto sertão potiguar, fui fazer uma audiência envolvendo um homicídio. Oitiva de testemunhas da defesa. Embora não constasse nos autos e ninguém tivesse coragem de prestrar depoimento, já ouvira falar, à boca pequena, que uma das testemunhas a serem ouvidas no processo era um indivíduo mais perigoso que o próprio acusado. Seria político em uma cidade fronteiriça de um estado vizinho e que já mandara matar pessoas antes. Era um sujeito conhecido pela arrogância e agressividade, e inclusive já houvera retardado o processo por não comparecer por duas vezes a audiências deprecadas na comarca próxima. Estava sujeito e ciente da condução coercitiva em caso de nova ausência e só por isso teria vindo para ser ouvido na comarca mesmo.
Entra a testemunha na sala de audiências. Aparentava ter quase cinquenta anos, nariz empinado, óculos de sol espelhado, cara de poucos amigos e ar de arrogância. Olhando o tempo todo para o relógio, tentava mostrar claramente seu enfado por estar ali naquele momento.
- Qual o nome do senhor?
- Adauto (nome fictício).
- De quê? – perguntei.
- E você num tem aí não? – questionou, com tédio.
- Meu senhor, obviamente tem aqui. Preciso apenas conferir as informações. A lei exige. – disse-lhe, enquanto ele resmungava algo incompreensível.
- Adauto de tal. Vai demorar aqui? Tenho coisas importantes para fazer. – Novamente olhou para o relógio. Não lhe respondi. Depois de conferir outras informações, perguntei-lhe:
- Qual a profissão do senhor?
Foi então que ele ergueu o peito e, com um ar de superioridade, respondeu-me, em alto e bom som:
- Vereador e Presidente pela segunda vez da Câmara do Verea...
- Pode parar! – interrompi. – Bastou-me sua arrogância. E continuei.
- Gostaria de informá-lo de que vereador não é profissão. O senhor é um mero detentor de mandato eletivo. Não mais que isso. Está aqui sendo obrigado a prestar depoimento e ele vai demorar o tempo necessário para que eu, o promotor e o defensor nos sintamos suficientemente esclarecidos. Só depois disso poderá ir embora. E por sinal, o senhor tem algum problema de vista?
- Não. - Respondeu-me.
- Pois então lhe peço que tire os óculos escuros. Gosto de olhar nos olhos dos depoentes. E agora que estamos esclarecidos de que vereador não é profissão, quero que o senhor me diga sua real atividade.
O homem secou o peito e respondeu, quase sem voz:
- Motorista...
Colocado no seu devido lugar, pude então comentar:
- Bela profissão. Tenho um tio que dirigiu para um jornal por muitos anos.
Furado o balão da arrogância, daquele momento em diante ele foi uma testemunha como qualquer outra...

3 comentários:

  1. hahahaha! boa, boa! Já imaginou esse cabra aí sendo " sr. juiz", "poliça", "delega"??? Bagaceira, hein???

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  2. Acredito que a arrogância retira de qualquer um a sensibilidade, a essencialidade e anda ali juntinho com o poder, sendo ele real ou apenas no imaginário e pode ser fruto também de muitas frustrações que despertam essa necessidade aí de ser considerado uma espécie de Deus. De uma forma ou de outra é sempre bom estarmos preparados para essas situações que infelizmente, vivenciamos diariamente. Bjos

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  3. Muito bem Dr. Rosivaldo!
    Nada que palavras ditas no momento certo não coloquem cada um em seu devido lugar.
    Abraço.

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