Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

5 de outubro de 2010

Pau dos Ferros?!


Em 2003 fui promovido para uma comarca de terceira entrância chamada Pau dos Ferros (no mapa acima se pode ver sua localização no Rio Grande do Norte). Imediatamente após a notícia liguei para minha família.
Em um dos telefonemas falei com meu cunhado, que é advogado em Natal. Estava com um cliente em seu escritório. Depois da ligação me contou o ocorrido.
- Foi promovido para onde, Rosivaldo? Pau dos Ferros? Vara Criminal? Parabéns!
O cliente, ao ouvir o nome da cidade, balançou-se repentinamente, como se estivesse assustado. Meu cunhado percebeu e logo que acabou a ligação, perguntou?
- Amigo, o que houve? Quando falei a palavra Pau dos Ferros você se assustou.
- Quem vai para Pau dos Ferros, doutor Fábio?
- Meu cunhado, que é juiz. Vai trabalhar e morar lá.
- “Homi”, diga pra ele não ir!
- Por quê?
O rapaz então contou que em 1997 era representante de uma distribuidora de bebidas. Tinha um cliente lá que fazia boas compras e ganhou confiança e crédito da distribuidora. Meses depois deixou um “prego” de quatro cheques, num valor alto. Apesar das súplicas do rapaz, o devedor não deu a mínima. Logo soube que ele simplesmente mudou a razão social, deu calote em vários distribuidores e ainda assim continuou no ramo.
O patrão do rapaz então o chamou ao escritório e lhe deu um ultimato: ou iria a Pau dos Ferros cobrar a dívida ou iriam dividir o prejuízo. No dia seguinte o rapaz viajou no carro da distribuidora.
Seis horas de sol quente depois, chegou no intervalo do almoço. Para sua revolta, era verdade que o devedor apenas tinha modificado a razão social. Continuava morando em cima do depósito de bebidas e o carro estava estacionado na calçada. Acionou a campainha. Um vulto olhou por uma das janelas do sobrado. Ninguém respondeu. Aguardou um pouco e novamente tocou a campainha. Silêncio lá em cima. Chateado, resolveu então apelar.
- Fulano, venha aqui pagar o prego que me deixou, seu velhaco. Sou pai de família e não vou ficar no prejuízo.
De repente chegam dois sujeitos numa moto. Um deles desce, aproxima-se do representante, dá-lhe um safanão que o faz cair no chão e os cheques voarem. O sujeito que está ao guidão da moto levanta a camisa, mostrando o cabo de um revólver. O que lhe agrediu lhe ameaça:
- Vá embora agora ou volta num caixão pra Natal!
Indignado e humilhado, o rapaz saiu em direção da delegacia. Ao chegar no local, deparou-se com um agente sentado na recepção, pés sobre a mesa e balançando sob as duas pernas traseiras da cadeira em que se sentava.
- Fui agredido. Queria falar com o delegado.
- Tá não...
- Volta a que horas.
- Saiu há três dias pra investigar o homicídio de um policial em Alexandria e não tem data pra voltar. Estou aqui sozinho tomando conta dos presos...
Aquilo não poderia ficar daquele jeito. Não desistiu:
- Então onde é que fica o Fórum?
- Logo ali em frente.
Dirigiu-se ao Fórum. Pelo menos com a ajuda do Promotor de Justiça resolveria aquela situação de agressão e ameaça. E lá chegando estacionou o carro em frente e desceu para falar com o vigia:
- A que horas abre o Fórum?
- Quer falar com quem?
- Com o promotor.
- Tem não...
- Como não tem?
- Mataram.
- Como é?! Mataram o Promotor?! E o juiz, a que horas chega?
- Tem não...
- Hã?! Não tem juiz também?!
- Tá foragido, acusado de ter mandado matar o Promotor.
Assustado, o rapaz foi ao posto telefônico falar com o patrão.
- Fui agredido e ameaçado! Não tem delegado, mataram o Promotor e o juiz está foragido! Doido é quem fica aqui! Venha o senhor cobrar. Eu mesmo não voltou mais aqui!
Ao final, meu cunhado perguntou:
- Tem certeza de que quer ir pra lá?





Obs.: Pau dos Ferros é uma cidade de um povo muito acolhedor, mas guarda um passado de violência e da triste história do assassinato do Promotor Manuel Alves e de seu segurança, em novembro de 1997. O Juiz Lacerda perdeu o cargo e foi condenado a mais de trinta anos de prisão. Trabalhei lá por dois anos e meio, na Vara Criminal. Era uma sensação estranha despachar processos em que ambos atuaram, ver as cotas manuscritas do Promotor que tombou na defesa da Sociedade. No fundo, vem a consciência de nossa falibilidade diante da maldade humana.

6 comentários:

  1. nossa, rosivaldo, fiquei triste... chocante é pouco, não??? pelo menos o crime não ficou impune!!!

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  2. Dr. Rosivaldo, parabéns pela coragem. "Homi", eu teria medo de ir para lá.

    Um abraço!

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  3. Sabe Júnior, sou uma leitora na medida das possibilidades, presente em alguns Blogs, como sou no seu. Gosto de ler e tentar entender o que se passa na minha volta e em várias áreas. Algumas vezes sou leitora silenciosa, outras não. Venho, Vou, volto, leio, releio e por aqui é sempre um GRANDE aprendizado. Parabéns pela sua força e determinação. Bjão

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  4. Parabéns pela sua coragem para assumir cargos públicos nesses lugares que antes, sabíamos que eram dominados, mas as coisas estão mudando, até que enfim.

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  5. ASSISTI UMA ENTREVISTA SUA NA TV ASSEMBLÉIA E PASSEI LOGO A BUSCAR SEU BLOG.

    EM VERDDE SÃO RELATOS MARAVILHOSOS, PROPORCIONADO UMA LEITURA GOSTOSA DE FATOS REAIS.

    PARABÉNS PELO ESTILO E SIMPLICIDADE.

    ESSE É O JUIZ QUE QUEREMOS.

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