Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

31 de dezembro de 2010

Lula, Elites e Preconceito


"Esse pequeno mas poderoso contingente de desconfortáveis, não acostumados a tal estado de coisas, esperou, em vão, durante os últimos anos o “grande erro” de Lula, que faria cair a máscara daquele que nunca poderia ter sido! E a ordem natural estaria restabelecida. Portanto, a despeito de todas as conquistas obtidas, muitas delas inatacáveis, a busca é sempre por uma inevitável falha, nem que seja para ressaltar a pouca educação formal ou os seus vícios de linguagem. Não importa se Lula provou estarem enganados. Não se trata aqui de julgar o que ele fez, mas sim o que ele é! E agora, finalmente, o dia do alívio está chegando..."

Há poucos meses escrevi um post no blog sobre o acontecido em uma excursão pelo Marrocos que eu e minha esposa fizemos. Havia gente de todo canto do mundo no ônibus. Logo no início cada um dos turistas se apresentou, dizendo o nome e a nacionalidade. Havia gente de cinco continentes. Quando chegou nossa vez, eu disse que éramos brasileiros e fomos os únicos aplaudidos!
Procurei então saber o motivo dos aplausos. Conversando com um casal de holandeses que estava entre quem nos aplaudiu, os dois ressaltaram a pujança econômica atual, a copa e as olimpíadas, e houve referências respeitosas a Lula. Aliás, durante as conversas com outros turistas, vários demonstraram, para nossa surpresa, admiração pelo nosso presidente e pela história de vida dele.
Na mesma época procurei fazer uma pesquisa nos principais veículos de comunicação da Europa. Todos salientavam a liderança de Lula. Ao voltar ao Brasil, deparei-me com o negativismo da grande mídia brasileira.
Passei a refletir sobre esse nordestino que migrou num “pau-de-arara” para o Sul Maravilha, em busca de oportunidades.
Imediatamente me veio à cabeça o estereótipo do nordestino migrante e recordei que em uma das viagens que fiz a São Paulo percebi que a maioria dos porteiros dos prédios eram nordestinos migrantes das camadas mais humildes. Com facilidade se reconhecia em cada uma das casinhas que abrigavam a portaria dos edifícios de luxo aquele biotipo mestiço, baixo e de cabeça-chata, que se expressava com constantes erros de concordância.
Comecei a refletir sobre os estereótipos que povoam nosso imaginário e formam o inconsciente coletivo, segundo a psicologia analítica de Jung. O arquétipo do nordestino migrante é aquele típico dos porteiros dos edifícios. E esse padrão não somente representa a vassalagem no Sul do país, como também no próprio Nordeste.
Assim, não para poucos bem poderia ser hoje o nosso presidente um daqueles porteiros... Isso explicaria em boa parte a sensação de incômodo que a figura de Lula causa a muitos integrantes da chamada elite, num sentido mais amplo, englobando a econômica e a intelectual.
Lula causaria um mal-estar pela quebra das expectativas e da violação do arquétipo. Algo não estaria no lugar. No lugar de sempre. No lugar-comum. Talvez isso explique o estranhamento de boa parte das classes média e alta em relação ao presidente.
Embora o discurso que assumimos seja o de que não temos racismo e nem preconceito contra grupos no Brasil, o recente processo eleitoral mostrou que a ferida existe e tem origens profundas na sociedade. Foi mais um sintoma para mim do que já pensava em relação ao que sofre o Presidente Lula. É indisfarçável o desconforto de muitos senhores e senhoras letrados, intitulados “doutores”, porque um reles torneiro mecânico – ainda por cima um nordestino migrante – representa o Estado brasileiro.
O nosso imaginário talvez ainda não esteja preparado para isso: a figura de um líder como ele, um outsider.
O caminho mais fácil, então, é a desconsideração dos seus acertos – pela negação pura e simples da sua ocorrência ou pela atribuição a outros –, a aclamação dos inevitáveis erros e a projeção nele do sintoma da quebra dessa idealização, reforçando o estigma, ainda que racionalmente deslocado dos fatos, da realidade social e econômica do país.

Esse pequeno mas poderoso contingente de desconfortáveis, não acostumados a tal estado de coisas, esperou, em vão, durante os últimos anos o “grande erro” de Lula, que faria cair a máscara daquele que nunca poderia ter sido! E a ordem natural estaria restabelecida. Portanto, a despeito de todas as conquistas obtidas, muitas delas inatacáveis, a busca é sempre por uma inevitável falha, nem que seja para ressaltar a pouca educação formal ou os seus vícios de linguagem. Não importa se Lula provou estarem enganados. Não se trata aqui de julgar o que ele fez, mas sim o que ele é! E agora, finalmente, o dia do alívio está chegando...
A grande mídia teve e tem papel crucial de reforço dessa visão estigmatizadora, pois reverbera pela classe média o sentimento geral das camadas privilegiadas que sofrem esse estranhamento. A palavra que melhor define esse estado de coisas é preconceito.
Contudo, Lula representa não só o biotipo, mas a identidade da maior parte do nosso povo. Um povo que, graças a ele, está aos poucos se livrando das amarras de uma escravidão simbólica: a desigualdade. Tratemos-nos por iguais, então!

3 comentários:

  1. Que em 2011 eu possa ter o prazer de continuar aprendendo com você. Muitas felicidades, tenha um novo ano de muita sabedoria.

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  2. Dizem que "contra fatos não há argumento", mas nessa luta simbólica que se trava, hoje, no seio da antiga majoritária classe média os fatos ainda não suplantam os argumentos inerciais de nossa sociedade, haja vista o estranhamento ao fato de porteiros e outras classes trabalhadoras terem acesso a meios materiais antes só alcançados pelos nobres consagrados pela vida. Um dia desses estava comprado uma tapioca no Alecrim, e surgiu um debate sobre os benefícios sociais do governo Lula e havia uma unanimidade naquele momento em torno do assunto, mas um jovem de seus vinte e poucos anos, portando um capacete de moto, ouvia e observava a discussão. Imediatamente ao pegar sua tapioca e já saindo, parou e disse a todos: isto que vocês estão falando é muito bonito, mas hoje qualquer "pé rapado" pode comprar um carro, e foi embora. Paulo freire, em sua pesquisa diz "o oprimido tem o vírus do opressor". Será que aquele jovem é oriundo dessa classe média que está um pouco confusa ou ele é um pé rapado que também está confuso com tamanha transformação na sociedade brasileira? Gostei de ver um juiz fazer uma leitura da sociedade brasileira com esta ótica.
    Miguel Arcanjo
    miguel-arc@ig.com.br

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  3. Parabéns pelo artigo. A grande verdade é esta mesmo, a parte abastada de nosso povo não admite que os seus irmãos estejam melhorando de vida pois isso os incomoda e os retira de uma situação de evidência. Hoje mesmo comentava com minha mãe sobre o quanto pessoas menos favorecidas tiveram acesso a coisas antes mais difíceis como um carro novo ou casa própria, e pode ter certeza, isso incomoda muitas pessoas. Todo mundo merece ter uma vida digna, independente de sua crença, raça, classe social. Não podemos ser tão egoistas em pensar que só nós podemos, temos que querer sim que os outros tenham algo, que sejam felizes também, talvez desta maneira consigamos chegar um dia a "sociedade DESENVOLVIDA" que tanto almejamos para nossos filhos.

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