Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

20 de janeiro de 2011

Juiz "Animal Planet"

 
Era noite na Comarca de Almino Afonso, alto sertão potiguar. A residência do juiz ficava em cima do Fórum e havia uma escada que dava direto na sala de audiências. Resolvi descer e acessar um pouco a internet, na época com conexão discada... extremamente lenta. E põe lenta nisso. Mas não havia opção.
Juiz em cidade pequena de interior não tem vida fácil. Eu mesmo aprendi a cozinhar rapidamente. Minhas especialidades eram as cozinhas “japonesa” (Nissin Miojo) e “italiana” (lasanha de microondas). Às vezes, arriscava a ótima feijoada em lata da Bordon...
Bem, mas naquela noite desci até a sala de audiências, liguei o computador,  abri o Internet Explorer, conectei-me à internet  e iniciei o exercício de paciência e humildade diante da tela que carregava lentamente...
Estava descalço, sentado ao birô e tomando uma sopa Knorr “galinha com fideline” quando senti algo fazendo cócegas no meu pé direito.
Distraído, olhei para baixo e saltei de um pulo só da poltrona, tomando um verdadeiro banho de sopa. Era uma caranguejeira imensa! O aracnídeo gigante tomou igual susto e saiu desesperado, patinando na cerâmica, buscando um abrigo. Refugiou-se nas sombras, sob uma estante metálica de livros. E ficou lá com suas oito patinhas e igual número de olhinhos assustados.
Não sabia como a aranha havia entrado. Mas uma coisa era certa: teria que tirá-la de lá até a manhã seguinte, de muitas audiências.
Não queria matá-la. E sabia que ela tinha mais medo de mim do que eu dela. Preparei então um plano. Mantive a luz acesa para que ela ficasse imóvel. Subi. Encontrei uma caixa de sapatos e uma vassoura grande. Tinha uma estratégia de captura.
Como sabia que o bicho procuraria sempre a sombra, virei lateralmente a caixa e a coloquei numa das extremidades da estante. Nada feito. Correu para outra estante. Nesse vai-e-vem, passaram-se uns vinte longos minutos de safari. Comecei a suar. Queria preservá-la a todo custo. Só então, após várias tentativas frustradas, consegui fazer com que ela entrasse na caixa de sapatos. Virei-a e a tampei. O bicho era grande mesmo.
Em todo caso, minha missão de zoológica estava quase completa. No melhor estilo “Animal Planet”, calcei-me e saí do prédio para completar a missão de reinserção do bicho ao ecossistema. Fui até o quintal do fórum, sob os olhares da lua e do atento e curioso filho do vizinho, um menino de uns dez anos.
Atrás do fórum não havia casas, pois era o sopé de uma serra. A aranha deve ter vindo de lá. Encostei a caixa em meio a um aglomerado de cardeiros, uma espécie de cacto e, lentamente e com cuidado para não machucar aquele belíssimo exemplar de aracnídeo, fui tirando a tampa. Vi-o sair timidamente da caixa e entrar no mato. Tarefa cumprida! Livrei-me da possibilidade de uma dolorosa ferroada e preservei a natureza.
Ao voltar do quintal, o garoto do vizinho me aguardava no muro. Vencendo o acanhamento, perguntou-me:
- Doutor, o que era aquilo na caixa?
- Amiguinho, era uma garanguejeira imensa. Desse tamanho! – e mostrei com entusiasmo a palma aberta de minha mão.
O menino, que tinha uns dez anos, arregalou os olhos de susto e fascinação.
E fui dormir satisfeito pela captura, e pelo exemplo de respeito aos animais e de preservação do meio ambiente que tinha dado ao jovem vizinho.
Na manhã seguinte, logo cedo, o Diretor de Secretaria veio me informar que o garoto estava querendo falar comigo. Pedi que entrasse.
Quando a porta abriu, o menino entrou sorridente e confiante, como nunca antes. Perguntei:
- Diga lá, amiguinho. O que deseja?
O menino se aproximou e com cara de felicidade, me respondeu:

- Doutor, deu um trabalhão danado, mas peguei uma lanterna e consegui matá-la, viu? Pode dormir tranqüilo agora!




* Alguns leitores perguntaram se a história era real ou fictícia. É verdadeira. Ocorreu comigo no ano de 2001 ou 2002, na comarca de Almino Afonso.

8 comentários:

  1. minha gente, que menino de coração bom! hahahaha! tadinho, nem sabia da trabalheira que tinha dado, hein? Mas a intenção foi das melhores! ;-)

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  2. (...)
    "É que há distância entre intenção e gesto."
    (...)
    "E se a sentença se anuncia bruta
    Mais que depressa a mão cega executa,
    Pois que senão o coração perdoa"
    (...)

    Belo garoto, belo causo, Doutor!

    Abraço,

    Danilo N. Cruz
    (Obs. Versos de Chico Buarque - Música Fado tropical)

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  3. doutor esse ai pode assinar nota 10!

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  4. Matar é uma agressão e toda agressão fere a lei de Deus, a lei de amor.

    Os animais têm espírito como nós, mas não têm a nossa evolução.

    Nós temos evoluído a razão e os sentimentos, além de uma inteligência em constante desenvolvimento. Eles? Só têm instintos.

    Eles vão evoluir até um dia evoluírem como nós (daqui há muitos milhões de anos).

    Eles são filhos de Deus como nós e estão aqui para evoluir.

    Eles também sentem dor, possuem sensibilidade e cabe ao homem ajudá-los como eles nos ajudam.

    Toda destruição que excede os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus.

    Quando retornamos para o mundo espiritual vamos responder por nossas atitudes e, entre elas, o tratamento que damos aos nossos irmãos inferiores.

    Respeitando a natureza estamos evoluindo espiritualmente.

    Parabéns por sua atitude nobre magistrado.

    ANDRE NASCIMENTO CRUZ, advogado, cristão e espírita. Teresina - PI. 21/01/2011

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  5. Após ler os comentários anteriores, me indaguei se tal narrativa é verídica ou fictícia.

    Não obstante tal questionamento, a resposta já não se faz necessária, haja vista a mensagem profícua que o texto, por si só, nos passa.

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  6. Pense num menino traquinas, Danielle.
    Obrigado, Danilo, Marcel e André.

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