Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

22 de janeiro de 2011

O que faz um bom exemplo... (uma história real)

Manuel Sabino e o pai

Há uns trinta anos, da janela do quarto o menino via seu pai sair todas as manhãs para o trabalho. Como de costume, naquele dia se despediu de sua mãe com um beijo carinhoso na testa e, carregando uma maleta, entrou num fusquinha branco. Deu a partida quando ouviu um grito:
- Papai!
Era a criança que corria de pijamas em direção ao automóvel.
- Deixa eu ir com o senhor para o trabalho?
- Filhinho, meu trabalho não é lugar de criança. Lá só tem gente grande. Outro dia te levo lá, tá?
- Tá! O dia vai ser amanhã?! – perguntou o menino, com aquele sorriso que derrete o coração de qualquer pai. O homem parou um pouco e respondeu:
- Você promete se comportar direitinho?
- Prometo.
- Pois amanhã irá comigo. Passamos um tempinho e eu volto pra te deixar em casa, tá?
- Tá!
Na manhã seguinte, lá estava o garoto arrumado e penteado, esperando seu pai ao pé da porta. Saíram.
O local era uma casa bem grande e cheia de pessoas na entrada. Havia umas placas, mas o garoto ainda não lia. Mal seu pai chegou e foi logo envolvido de gente. Perguntavam umas coisas esquisitas que o garoto não entendia nada. Ao chegar no interior do prédio, seu pai apontou para uma porta branca onde havia um fila de gente aguardando na frente:
- Meu filho, é naquela sala que seu pai trabalha. Vamos lá.
As pessoas da fila entravam e começavam a conversar com seu pai. Umas riam, outras choravam. Mas ninguém saía de lá sem um sorriso, um aperto de mão ou um abraço.
Ao se dirigirem de volta para casa, um homem da idade do seu avô saiu da fila, aproximou-se e abraçou seu pai:
- Doutor, estou aqui só pra agradecer pelo que o senhor fez comigo. Salvou a minha vida. Nunca esquecerei. Muito obrigado – e se foi sorrindo, mas com olhos de quem cortou cebola.
O menino olhou admirado. Do auto dos seus cinco anos de idade, percebeu naquele momento que seu grande herói tinha uma tarefa muito importante na vida das pessoas.
Voltou feliz e orgulhoso para casa. Sentiu uma sensação indescritível de paz e segurança. Do banco do carona seus olhinhos brilhavam de admiração enquanto olhavam para o seu ídolo.
Antes de chegarem, o menino perguntou:
- Papai, o senhor salva a vida das pessoas? O senhor é um super-herói como o super-homem?
Seu pai sorriu e com um olhar terno fitou o filhinho. E respondeu:
- Sou um Defensor Público, meu filho.
Foi dessa forma marcante que começou a história de Manuel Sabino Pontes. Um homem que descobriu bem cedo a grandeza dessa profissão. Sabe por que a beca da defesa nunca lhe pesou sobre os ombros? Porque a guardava, desde então, em seu coração. Por isso tanta realização, harmonia e naturalidade na carreira: foi apenas a doçura de um reencontro.
Cuida do mais simples dos acusados com a mesma consideração, atenção e respeito com que os grandes homens são costumeiramente tratados. E conduz a defesa com o cuidado de um ourives. Não por menos suas peças são verdadeiras jóias argumentativas.
Em todos esses anos de carreira já sentaram no banco dos defensores grandes homens. Defensores Públicos ou constituídos, eruditos e brilhantes, jovens ou vividos, sagazes e perspicazes. Íntegros. Mas nenhum com a estatura maior do que a de Manuel Sabino Pontes.







* Manuel Sabino é Defensor Público no Rio Grande do Norte. Há dois anos responde pelos processos de réus carentes (quer dizer, quase todos) na 2ª Vara Criminal, da qual sou Juiz Titular. Certo dia ele me contou, despretensiosamente, sua bela história de vida que eu, sem sequer avisá-lo, decidi transcrever nesse conto-homenagem, pois tanto ele quanto a sua  bela história de vida merecem. A foto acima foi exatamente no dia da sua posse. Ele também possui um blog: http://defensorpotiguar.blogspot.com/


4 comentários:

  1. Manuel Sabino Pontes22 de janeiro de 2011 19:17

    Caro amigo, demorei para comentar pois ainda estou me recuperando da emoção. Estou visitando meu pai em João Pessoa e, tanto eu como ele, não conseguimos segurar as lágrimas ao ler e relembrar este momento de ternura e também definidor de nossas vidas.
    Com relação aos elogios, peço ao leitor que aplique um considerável desconto derivado da generosidade de meu amigo Rosivaldo.
    Mas uma parte do que está escrito nem a modéstia me permite recusar: sou um apaixonado membro da Defensoria Pública. Tenho muito orgulho do que faço. Aprendi isto com meu pai, minha bússula moral, mas diversos outros exemplos ajudaram a definir meu caminho. E ainda estão o fazendo.
    Um destes exemplos é você, que com coragem e determinação vem praticando hoje uma Justiça que ainda demorará algumas décadas para ser assimilada por uma quantidade significativa de operadores do Direito.
    É uma alegria diária trabalhar comtigo.
    Um forte abraço.

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  2. Manuel Sabino Pontes24 de janeiro de 2011 15:58

    Em tempo, o nome de meu querido pai é José Cláudio Pontes...

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  3. Belíssima história, contada pelo nosso querido Juiz-poeta. Que lindo exemplo de vida que Dr. José Cláudio Pontes deu ao seu filho... E, creiam, a lição foi bem assimilada. Dr. Manoel é um exemplo de pessoa humana, de gente que se importa com os demais. No caso dele, "os demais" são pessoas muito carentes. Estão os três de parabens. Dr. Rosivaldo, pela sensibilidade ao relatar os fatos, e os protagonistas da história, pelo belo exemplo.

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  4. interessante a historia bonita tbm..mais nao era q eu estava procurando para meu trabalho pois era achar uma de pessoas que o protagonismo juvenil ajudou a melhora de sua vida....

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