Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

2 de fevereiro de 2011

De Igual pra Igual...

José Augusto Peres Filho


Há quase vinte anos, em uma comarca do interior do Rio Grande do Norte, o Fórum da cidade era tão diminuto que o juiz e o promotor dividiam uma mesma sala. Os atendimentos, tanto do juiz quanto do promotor, eram marcados para horários diversos dos das audiências da Comarca. E mesmo assim um tinha que assistir, ainda que a contragosto, aos atendimentos do outro.
Era dia de atendimento do promotor. Entra um casal para realizar tentativa de acordo de pensão alimentícia para as duas filhas menores. Detalhe: tanto a ex-esposa quanto o ex-marido eram interditados por doença mental. Ele, inclusive, enquadrava-se na já clássica categoria dos “loucos varridos”. 
Presentes os curadores de ambos, o promotor começou as tratativas para celebração do acordo. Em dado momento, porém, os ânimos do casal se exaltaram e ambos passaram a gritar um com o outro.
O juiz assistia à cena um tanto quanto apreensivo e se perguntando como conseguiria o promotor dominar a situação quando o casal descambasse para já a iminente luta corporal.
Com receio da situação se agravar, tendo em vista serem ex-marido e ex-mulher portadores de doença mental, o promotor não contou conversa. Resolveu por fim àquela muvuca com uma estratégia inusitada.
Deu um sonoro tapa na mesa, olhou para o casal com olhos de quem não tinha nada a perder, e gritou:
- Olha aqui! Eu sou nervoso, viu?! Eu sou nervoso! Eu tomo remédio controlado e aqui ninguém fala mais alto do que eu, viu?!
O juiz esperou que naquele momento o casal se unisse, mas não para assinar um acordo, e sim para avançar sobre o pescoço do promotor.
Porém, silêncio profundo na sala. Todos ficaram estupefactos. O casal esperava tudo, menos um sujeito mais doido do que eles naquele recinto. Incrivelmente, ambos sentaram, os ânimos se acalmaram e em poucos minutos o acordo foi datilografado (ainda era nesse tempo), assinado por todos e homologado pelo perplexo juiz que estava no birô ao lado.
Na saída, todos se cumprimentaram e a ex-esposa, dirigindo-se ao promotor, abriu um sorriso, puxou-o para um lado e, em tom de segredo, disse-lhe algo. O promotor começou a rir.
Curioso com a cena, logo que todos saíram, o juiz perguntou:
- Fulano, o que danado foi que a mulher falou para você?
- “Doutor, gostei do senhor. Porque o senhor nos entende... Foi de igual pra igual!”

7 comentários:

  1. Moral da estória: O remédio de um doido é outro na porta." hahaha
    Parabéns!




    Lorena Faustino

    ResponderExcluir
  2. Bom dia, Dr Rosivaldo. Gostei da técnica do promotor. Háhahaha. Vou adotá-la.

    Abraço.

    ResponderExcluir
  3. Fui aluna do Prof. Manuel Maia e já tive a oportunidade de assistir audiência com Dr. José Augusto, grandes lições aprendidas. Muito bom!!

    ResponderExcluir
  4. precisamos desse doutor aqui no prodecon/df, pois em gente esutdada aqui que diz que vender gas de cozinha em casa não é crime

    ResponderExcluir

IDENTIFIQUE-SE E FIQUE À VONTADE PARA COMENTAR. SOMENTE COMENTÁRIOS ANÔNIMOS NÃO SERÃO ACEITOS.