Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

19 de fevereiro de 2011

Injúria Alimentar



Eu era juiz substituto na pequena comarca de Almino Afonso e a acumulava com uma maior chamada Patu, ambas no alto sertão do Rio Grande do Norte.
Numa das vindas à capital, diante das dificuldades de morar numa cidade tão pequena e isolada, sem bons mercados ou opções de restaurantes, uma tarefa importante era fazer uma boa feira. Na segunda, bem cedinho, abri o Carrefour. Fiz as comprar pra levar pra comarca e entre os produtos comprei, para experimentar, dois pacotes de torradas Bauducco.
À noite, com fome, resolvi “inaugurar” as tais torradas. Para minha decepção, esqueci de trazer algo pra passar nelas. Numa região tão quente e árida, seca, comer aquela torrada pura não dava. Desci e fui a pé até o melhor mercadinho de lá:
- Seu Fulano, boa noite.
- Boa noite, doutor.
Fui olhar o que tinha no refrigerador. Nada demais.
- Comprei um pacote de pão de torrada e queria algo pra passar.
- Temos margarina – respondeu. Nunca fui, porém, adepto de gordura vegetal:
- Obrigado, amigo, mas não gosto. Até mais.
Como no dia seguinte iria a Patu, que era duas vezes maior que Almino Afonso, sosseguei.
Passei o dia fazendo audiências. Já no início da noite, quando estava para ir embora, perguntei ao Oficial de Justiça.
- Amigo, é a segunda vez que venho aqui. Não conheço nada. Onde fica o melhor mercadinho?
- É em frente ao Pâmpano Clube, na avenida principal, doutor.
Fui até lá. Ainda com cara de menino, todo engravatado, mais parecia um pastor do que um juiz.
- Boa noite. – Falei, ao entrar no estabelecimento, ao desconfiado balconista que me olhou de cima a baixo. E completei:
- Tem patê?
- Ei! “Né” patê não, viu? É Patu! – respondeu-me indignado e com cara de poucos amigos.
- É patê.
- É Patu!
- Amigo, Patê...
- Que coisa mais feia! Nem o conheço, você chega aqui na minha cidade e fica falando o nome errado! Nem sei de onde veio, mas se quer bagunçar, vá pra sua cidade! O NOME É PATU!
Percebendo a indignação do cidadão, encontrei uma mortadela São Mateus.
- Tá vendo essa mortadela?
- Tô... – disse ele com os braços cruzados e a cara amarrada, fazendo beiço de raiva.
- Imagine se eu colocasse um pedaço no liquidificador. Entendeu?
Ele pensou... pensou... pensou e respondeu:
- Não... Mas leve meio-quilo!
Terminei a note me satisfazendo mesmo com um potinho de manteiga...

9 comentários:

  1. Meu Deus. Seus causos são demais. Parabéns. Ri deveras.

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  2. difícil de se fazer entender, hein? mas fica complicado já q ele nem sabia o q era patê!

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  3. Bom ... se a indignação do cidadão foi tamanha e a arrogância idem, por que não tratar com um pouquinho de sarcasmo?

    - Tem patê?
    - Ei! “Né” patê não, viu? É Patu!
    - Isso! "Pámin". "Pámin passá nu pãu!"

    rsrsrs.

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  4. MUITO BOM, DR.! COMO TODOS OS OUTROS CAUSOS AQUI CONTADOS. COMPARTILHEI. TENHA UM ÓTIMO FINAL DE SEMANA. ABS.

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  5. Hahaha..
    Mas ainda bem que vc tava em Patu e o cara era de lá... Se fosse em Janduis (q é perto de lá)... aí fazia era medo essas ignorâncias! huahuahua...
    Acho que vc já ouviu falar de algumas histórias de Janduis.. rsrs

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  6. Já ouvi, sim. Pense numa terra de gente "braba"!

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  7. Rosivaldo,
    KKK (Ainda rindo!) Isso parece com uns "problemas alimentares" que tive, mas, na minha primeira comarca, apareceu, depois, um supermercado muito bom e deixei de fazer feira em João Pessoa, para levar.
    Mas, conta aí... não tinha um potinho de requeijão não? (KKK)
    Abração!

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  8. Tárcio Danilo Bezerra4 de abril de 2011 08:31

    Parabéns, Doutor seus causos são bem cômicos, a minha mulher é de Almino Afonso, e sou de uma cidade muito perto das demais cidades constantes nas histórias, sou aluno do Curso de Direito também, se ninguém acreditar que isso acontece no interior, pode me chemar que serei prova que isso verdadeiramente acontece no interior.

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