Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

14 de março de 2011

O Temível Jamaica



Contou-me um colega da magistratura de Tocantins que “Jamaica” era o apelido de um acusado que tinha uns dois metros de altura por dois de largura, literalmente. Um indivíduo muito mal-encarado e famoso no interior do estado pelo seu temperamento agressivo. Dizia a lenda que após uma confusão em um bar, ele havia, no braço, posto nada menos que dez homens para correr. Dar porrada era com ele mesmo. Além disso, era matador, acusado de homicídios na região.
O juiz de uma pequena comarca daquele estado, homem franzino e cauteloso, sabendo que iria fazer o interrogatório do famoso “Jamaica”, procurou se prevenir. Horas antes da realização do ato, afastou o banco dos réus para um metro e meio do seu birô. O tal birô era uma mobília alta, antiga e pesada, feita em ipê roxo, que transmitia ao juiz pelo menos uma sensação de maior proteção. Quanto mais ficasse Jamaica sentado distante do juiz e quanto mais protegido o juiz pelo birô, melhor.
Na época o interrogatório era a primeira audiência do processo.
O camburão trazendo o acusado chegou pontualmente ao fórum. Jamaica precisou baixar a cabeça para conseguir passar pela porta da sala de audiências, acompanhado de meia dúzia de policiais fortemente armados que mais pareciam pigmeus ao lado dele. O gigante algemado entrou e sentou na cadeira que diante dele assumia a dimensão de um simples tamborete.
E para desespero do magistrado, com a maior naturalidade, Jamaica, mesmo sentado, inclinou-se decididamente para frente e arrastou com os dois longos e musculosos braços o pesado birô para junto de si. Fez com tal facilidade que até parecia que se tratava de uma peça de papelão, deixando o pobre magistrado desguarnecido e isolado em um canto da sala, encolhido em sua poltrona. Depois perguntou ao pálido juiz, num timbre de voz que fez tremer a sala toda:
- Pois não, Doutor?! O que deseja saber?!

3 comentários:

  1. É uma barra ser Juiz numa situação dessas, mas, a meu ver, por mais bandido que alguém possa ser, claro que estamos falando de uma pessoa comum, no caso do Jamaica, o problema é que ele era demasiadamente forte, o cidadão perante um Tribunal é como se estivésse em uma Igreja,um local sagrado, ou seja, até para quem vai ser condenado ou inocentado há um respeito para com a justiça; é como aquele menino que fez uma arte, sabe que não deveria ter feito e será repreendido pela mãe, e talvez vá levar uns tapinhas, sabe no seu íntimo que errou; há um respeito, uma coisa até que inexplicável do meu ponto de vista, quem "vê cara não vê coração" sorte do Juiz Milton que era somente um interrogatório, não queria estar na pele da Promotoria.

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