Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

8 de fevereiro de 2011

Puxando da Memória




Essa história aconteceu há muito anos com Suayden Fernandes, colega da magistratura do Pará. À época, ela era juíza da Comarca de Aurora do Pará.
Para que o leitor entenda, uma pessoa só existe, para efeitos legais, quando tem sua certidão de nascimento. Na época, a lei dava um prazo para os pais fazerem o registro da criança. Passado esse prazo, só na Justiça. Como havia muita gente precisando, ocorriam mutirões. E esse caso se deu exatamente nesse contexto.
Logo na primeira audiência da tarde, uma mulher muito humilde, já beirando os cinquenta anos, entrou com seu filho. Não tinha nenhum documento da maternidade, certidão de batismo, etc. O jeito era ouvi-la para poder obter as informações básicas e determinar o assentamento do registro. Suayden fez a primeira pergunta:
- Dona Maria, quando Francisco nasceu?
- “Dotora”, “num” sei não.
- Minha senhora, sem essa informação eu não tenho como determinar o registro do seu filho. Por favor, tente lembrar.
A mulher olhou para a juíza, colocou as mãos na cabeça e fez uma careta. Depois de uns cinco minutos de caretas, ela maneou a cabeça negativamente.
Acostumada com o nervosismo das partes diante do Judiciário, a colega falou:
- Dona Maria, todas aquelas pessoas lá fora também tem audiências comigo esta tarde. Então vou fazer assim: suspenderei a audiência e logo que a senhora lembrar, retomaremos, ok? Aí dá tempo pra senhora lembrar diretinho.
A mulher concordou e saiu de mãos dadas com o rapaz.
Passaram-se uma, duas, três, quatro horas e nada. Aproximava-se o final do expediente e já não tinha mais ninguém no local. De repente, a mulher entra sorridente na sala de audiências. De mãos levantadas, falou confiante:
- Eu lembrei, “dotora”!
Vendo o esforço e a determinação da senhora para se lembrar, Suayden reiniciou a audiência, como prometido.
- Pergunto novamente à senhora, Dona Maria, em que dia seu filho nasceu?
- A mulher suspirou e com alegria respondeu:
- Finalmente lembrei, “dotora”. Foi num domingo!



Obs.: Somente na segunda semana do mutirão, Maria conseguiu lembrar a data. Foi realizada nova audiência e Francisco e sua mãe saíram felizes com o registro de nascimento do rapaz em mãos.

Um comentário:

  1. Realmente uma história engraçada, mais ao mesmo tempo triste, por ela, conseguimos medir a situação de miséria de nossa população; que vive a margem de sua cidania.

    Ednilson

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