Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

21 de abril de 2012

O lobby transcendental e a ética




Partamos dos seguintes pressupostos:
a) Deus existe; b) Deus adota como princípios amar todos igualmente e tratá-los também igualmente, o mais básico critério de justiça; c) Deus é onisciente e onipresente.
Então, ele ama igualmente, não trata ninguém desigualmente e sabe de tudo o que acontece em todos os lugares, inclusive na consciência dos homens.
Se ele não trata ninguém desigualmente, então não pode ajudar ninguém de maneira a prejudicar outra pessoa, pois aí estaria tratando alguém desigualmente.
Havendo interesses conflitantes na vida em sociedade, se alguém pede uma ajuda a Deus em alguma situação em que colocaria outra pessoa em desvantagem em razão dessa ajuda, Deus não deveria interferir.
Seria ético, portanto, em uma prova de um concurso, cujo número de candidatos é superior ao de vagas, alguém pedir que Ele o ajudasse?
Ou o pedido deveria ser, tão somente, “Deus, ajude-me em todas as situações em que eu precisar, mas ajude todos da mesma maneira”?
Sendo assim, não seria melhor pedir que Ele não interferisse, não ajudasse ninguém?
Ou seria ainda mais ético pedir que ajudasse as pessoas que mais precisassem, o que, não necessariamente, seria o orador-pedinte? Mas se há pessoas que mais precisam, por que pedir mais ajuda a elas se Deus é onisciente e deixou que elas ficassem com mais precisão?
E uma questão restou em branco. Partimos do pressuposto de que Deus é onisciente. Ele sabe de tudo e, portanto, não precisaríamos pedir. Se ele trata todos igualmente, não seria um pedido que determinaria isso. Não seria justo e coerente por parte Dele, uma vez que nem todas as pessoas percebem que precisam de ajuda. Mas digamos que Ele não pense assim, que numa espécie de sentimentalismo ou orgulho, seria o pedido o único pressuposto. Logo, melhor seria pedir só uma vez na vida: “Deus, ajude-me em todas as situações em que eu precisar, mas ajude todos da mesma maneira”. Enfim, mais prático seria Deus não fomentar a desigualdade. Portanto, o melhor pedido seria: “Deus, não interfira”.
Lógico que parti do pressuposto de que Deus(es) exista(m). E se ele(s) não existir(em), o tempo perdido nas inúmeras orações foi um ponto contra. O melhor, então, diante da ineficácia do pedido, seja pela onisciência de Deus ou da sua não existência, é procurar dar o melhor de si em tudo e cobrar igualdade de tratamento de quem estiver com o poder de decisão sobre alguma esfera de sua vida, independente de qualquer espécie de lobby transcendental. E lobby, de qualquer tipo, não é ético.


*Rosivaldo Toscano Jr. é juiz de direito e membro da Associação Juízes para a Democracia - AJD 

4 comentários:

  1. "O Meretíssimo é profundo conhecedor de Ética e de Direito, mas... com o devido respeito, é desconhecedor de Deus; verdadeiramente Deus ama a todos, é onisciente, etc., todavia há várias formas de amar e Deus não seria justo se tratasse igualmente quem o ama e faz sua vontade e quem não o ama e não se preocupa com sua vontade, antes peca e comete maldades.
    Nesta altura, é justíssimo que Deus ajude quem o ama e faz sua vontade em detrimento daqueles que não o amam e procedem mal, aliás, no Livro dos Salmos encontramos que Deus tira do ímpio e dá ao justo.
    Não acredito que alguém, sem estudar, vá fazer uma prova ou prestar um concurso e passe milagrosamente, ainda que Deus tem poder para isso, mas... Deus ajuda, sim, os que o amam e o temem e guardam sua palavra, a prova disso é como me tem ajudado, aliás, em algumas ocasiões, em detrimento dos ímpios". por Josir

    Bom dia!

    Em decorrência desse texto solicitarei ao amigo Josir, um estudo mais aprofundado acerca do tema. Por ora,é isso. Dalva Marçal

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  2. Dizer com exatidão o que pensa Deus não é tarefa das mais fáceis. Mesmo com tantos escritos sobre Ele, jamais poderemos dizer que já O conhecemos por completo ou que tudo que Ele é se resuma na ínfima quantidade de livros e autores que se dedicam a falar a favor ou contra Ele.

    De fato, Deus existe. E não existe só para os que nEle creem; existe para os que também não O aceitam.
    O que não existe não pode ser combatido. Ou pode?

    Decerto, muito embora haja um sentido filosófico no texto do insigne jurista, sua fragilidade enquanto conteúdo recai justamente naquilo que é nossa principal limitação: somos humanos.

    Nós sempre tentaremos entender quem é Deus a partir do que somos; como se estivéssemos falando ou tratando de um outro ser humano mortal e limitado.

    Desde o mais remoto passado, grandiosas teorias foram desenvolvidas - com base em estudo científico e tudo mais - para entender o ser humano; e nada que temos, inclusive hodiernamente, é capaz de nos garantir absolutamente tal entendimento. Como então, de forma pragmática, entenderemos Deus, se o nosso próprio Eu é algo tão complexo?

    Portanto, quem não se prepara objetivamente para crescer numa determinada área profissional e perde as oportunidades terá menos brilho aos nossos olhos, porém, continuará vivo.

    Pelo pouco que ouço falar de Deus - que já é o suficiente para crer em Sua existência -, não seria justo que alguém que apenas "dormiu" ficasse à frente de quem deu duro e se esforçou para conquistar algo, uma vaga de emprego, p. ex.

    Portanto, quer passar num concurso? Prepare-se!
    Certo adágio popular diz que "Deus ajuda quem cedo madruga".

    Quanto às oportunidades estão aí, basta sermos mais atentos, pois não ficam paradas num mesmo lugar sempre.

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