Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

4 de novembro de 2012

Violência: a forma como os policiais se auto-destroem - do blog Psicologia Racional





A vida de policial é muito difícil. Uma grande parcela deles desenvolve problemas psicológicos graves. Alcoolismo, consumo de drogas, depressão, problemas sérios com esposa e filhos, etc.
Comparado com o resto da sociedade, os policiais tem mais problemas psicológicos. Já tratei de vários deles, e aprendi muito sobre alguns comportamentos que os destroem.
Vou tratar neste texto de um ponto. Antes, porém, sugiro que leiam o texto abaixo:
"Na madrugada do dia 31 de outubro, centenas de policiais militares com cavalaria, cachorros e viaturas da Rota invadiram a comunidade São Remo - vizinha à USP, que existe há mais de 40 anos e, onde moram mais de 13 mil pessoas - arrombando casas de trabalhadores muitos dos quais funcionários efetivos e terceirizados da USP.
Uma companheira, funcionária da USP, que teve sua porta arrombada, pelos coturnos dos soldados, pediu o mandado judicial e recebeu dois tapas, no rosto, de um policial que gritava: - está aqui!. Em várias outras casas, os policiais quebraram móveis, eletrodomésticos e, quando os moradores protestaram dizendo que eram trabalhadores, ouviram dos policiais que quem mora na favela e não paga IPTU é bandido".  Continue lendo
Quero discutir esta triste situação sob a ótica da saúde mental dos policiais. 
Qual a origem social destes policiais: a mesma das pessoas que eles agrediam livremente. Eles desqualificam estas pessoas, que poderiam ser seus parentes, amigos ou filhos. Cria-se um condicionamento mental: a agressividade deve ser direcionada para aqueles que são como eu - um "lixo". 
Agressividade mais auto-desqualificação atua na mente destes profissionais gerando alta dose de ansiedade e angústia. 
Quem treina para usar a agressividade em um momento da vida, aprende a gerar a agressividade em todos os momentos. É como diz uma frase atribuída a Nietzsche: "a pessoa belicosa em momentos de paz briga com ela mesma". 
Atribuo grande parte do sucesso dos tratamentos que fiz com policiais ao descondicionamento da agressividade dirigida às pessoas mais humildes. É a melhor forma deles aprenderem a não cultivar as várias formas de agressividade na vida cotidiana.
Policial deve ter autoridade. Sem isso, não há como trabalhar. Outra coisa é o autoritarismo, que é  o primeiro incentivo para a perda de controle na hora do trabalho e em outros momentos.
Todo policial deve ser treinado para ser educado, firme e delicado. É a melhor forma de controle do stress e a melhor forma de gerar um vínculo positivo com as pessoas (o que facilita seu trabalho).
Não existe contradição entre ter autoridade e ser educado, firme e delicado. A primeira passo é se defender.
O policial de índole agressiva, que se auto-desvaloriza, costuma se colocar em risco. Vou dar um exemplo: o policial para um carro. Vai até a porta e manda o sujeito sair do carro, intimida, etc. Se o sujeito tiver uma arma nem dá tempo dele reagir. Ele acha que sua postura agressiva o protege, mas é o oposto.
O policial que gosta de si faz assim: para o carro e, se protegendo, manda o sujeito sair do carro. Ao ter certeza que não há risco para si, manda delicadamente o sujeito virar de costas, para ser revistado educadamente. São várias proteções anti-stress: se defender, ser delicado, ser educado, etc. A autoridade deve ser preservada, sem ela não há serviço bem feito.
Este mecanismo de PROTEÇÃO MENTAL é extremamente importante para toda a sociedade. Principalmente para os mais pobres, que sofrem mais abusos e para a polícia e seus familiares.
Seria muito mais fácil capturar bandidos se a população tivesse um laço mais profundo com a polícia. Haveria uma rede de informação muito mais eficiente. Seria mais fácil capturar estes assassinos que tem matado policiais, aqui no estado de SP. Todos sairiam ganhando, pois onde a educação, a delicadeza e o respeito prevalecem é mais fácil de trabalhar - justamente porque o stress diminui muito e a racionalidade/eficiência aumenta.
Esta filosofia tem sido vitoriosa em vários casos que atendi. Uma vida melhor para os policiais, suas famílias e mais eficiência no combate ao crime.
Todos somos seres humanos e todos merecemos viver bem, felizes e satisfeitos. O respeito e o controle da agressividade é parte fundamental desta conquista.
O que você acha? Comente, sua opinião é muito bem vinda.

2 comentários:

  1. Tenho muita desconfiança de movimentos anti-polícia. Precisamos de polícia, mas de uma polícia melhor do que esta que temos. E não vamos conseguí-la desclassificando ainda mais os policiais, mas entendendo os seus problemas e buscando enfrentar as suas causas.
    Advoguei para policiais militares de São Paulo e vi de perto esses problemas. O texto aborda por outro ângulo aspectos que eu, leiga em psicologia, tinha deduzido. Precisam de um melhor treinamento, atenção e respeito. É uma questão muito mal resolvida. E para quem expõe diariamente a vida à risco, é essencial domar a agressividade.

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  2. Bela análise, Tati M. Nada de demonização de toda uma categoria. A questão deve ser tratada com a compreensão de que tal situação existe e exige um tratamento por meio de especialistas. Deve, aliás, ocorrer um acompanhamento constante. Toda exposição prolongada à violência gera traumas. Gera sequelas. E não sofrem só o policial traumatizado e a comunidade por ele afetada. Seus familiares também sentem a mudança de comportamento e a agressividade dentro do lar.

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