Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

2 de dezembro de 2012

Podem me chamar de Rosivaldo


Pelos lugares do mundo passei, vi muitos nomes diferentes. De locais e de pessoas. Quando fui à Argentina de Evita; ao Chile de Neruda (que, na verdade, chamava-se Neftalí Ricardo Reyes Basoalto). Ao Paraguai, pobre Paraguai, de Stroessner. No Peru, conheci a expressão da língua quíchua, Pacha Mama (Mãe Terra) e a cidade perdida de Machu Picchu. Na Venezuela, Chávez (amado ou odiado). No México, Teotihuacan. Em Portugal, em que morei dois meses, o melancólico e belo fado, e o invasor Cabral. A Espanha do flamenco e de Cervantes. A França de Rousseau a Sartre. A Inglaterra de Shakespeare. A Áustria de Freud (que, na verdade, nasceu em Příbor, à época, parte do Império Austro-Húngaro – hoje, República Checa). A Irlanda, com seus míticos gnomos. A República Tcheca, de Kelsen (além das belas ruas de Praga). A Hungria, com sua capital que fundiu as antigas cidades de Buda e Peste. A Eslováquia de Bratslava (que um dia se chamou Brezalauspurc). A Itália de Michelangelo e Da Vinci, dos belos e trágicos Vesúvio/Pompéia. Até mesmo o Marrocos, do Saara (onde vi, entre as dunas do deserto, o céu mais estrelado de minha vida) e de tantos milhões de Mohamed mulçumanos. Todos esses nomes me afetaram e me ensinaram algo. Todos são expressões de uma cultura, e são todos, a sua maneira, inigualavelmente belos.
Mas pode o nome Rosivaldo causar estranhamento? Ontem, em Porto Alegre, em um elevador, na saída de uma formatura, uma pessoa cujo nome não sei e nem tenho intimidade, tentou fazer um chiste com o meu nome. Talvez, para ele, seja algo muito engraçado eu me chamar Rosivaldo – algo que lhe valha uma piada. Talvez meu lugar de origem também esteja fora do seu horizonte de normalidade. Talvez o que conheça da cultura do Nordeste tenha sido pelo Jornal Nacional... Talvez, para ele, o “normal” é tudo aquilo que lhe é comum. E como é comum ser comum... 
No Sul do Brasil os nomes guardam uma maior relação com as origens europeias. É bem verdade que a cultura hegemônica apregoa essa tradição. No Nordeste, contudo, ainda é relativamente usual a junção de nomes. Ainda subsiste um costume de unir radicais ou sufixos para homenagear parentes. É, antes de tudo, antes de ser estranho ou digno de chiste, um ato de reconhecimento, de respeito e de amor. 
Acho engraçado também alguém aqui falar que tenho um sotaque estranho ou “puxado”. Nunca leu Einstein: “tudo é relativo”. Sotaque todos têm. Não existe um sotaque fundamental, que se torne modelo para avaliar os demais. O mundo não tem centro. Talvez alguns não saibam disso. 
Aqui em Porto Alegre algumas pessoas me chamam de Júnior. E, na verdade, sou mesmo Júnior. Mas, antes de Júnior, sou Rosivaldo. Pode soar engraçado para alguns, causar estranhamento ou despertar o desejo do chiste. Mas representa muito para mim por um motivo simples. Em 20 de abril de 1943 nasceu um Rosivaldo. Numa família humilde, começou a trabalhar na feira de Campina Grande aos oito anos, vendendo sabão. Passou fome. Lutou muito. Décadas depois, tornou-se um comerciante bem-sucedido em Natal. Mas antes de ter uma bela carreira profissional, foi um grande pai. Nunca vi meu pai tendo algum estranhamento com o diferente. O outsider sempre foi visto por ele como uma possibilidade e como expressão de um mundo plural. E olha que ele nunca cursou uma Universidade. Ele me fez ver que essas coisas não são aprendidas em sala de aula. Elas são geradas no coração. 
Espero que ele também se orgulhe por ter me dado seu nome. Procuro seguir seus ensinamentos. Dentre eles, o de que para além de uma reles letra a mais, há um abismo tremendo separando o útil do fútil. Que devemos tratar todos com igual consideração e que dignidade não se compra – e nem se vende. Nunca vi meu pai, à toa, ofender sequer uma formiga. Nem destratar ou menosprezar alguém por ser diferente ou por estar em situação de inferioridade. 
Assim, fiz faculdade, formei-me, fiz pós-graduações. Mas sei que a maior sala de aula é a vida, e meu pai é e sempre foi meu grande professor. Por isso, a cada dia eu me esforço para honrar o nome que ele me deu. Para que tenha valido a pena essa simbólica herança. 
Portanto, podem me chamar de Júnior, se quiserem. Mas se puderem me chamar de Rosivaldo, ficarei igualmente feliz.

*Rosivaldo Toscano Júnior é Juiz de Direito e membro da Associação Juízes para a Democracia - AJD

15 comentários:

  1. Tocante o relato! No quesito sotaque, tenho o meu e não dispenso. Natural de uma pequena cidade do interior de São Paulo, quando residi na capital, sempre fui alvo de zombaria. Não meu importo com isso, sei que há pessoas que simplesmente não se importam com os nossos valores. Quer saber de uma coisa, Rosivaldo, não estou nem aí pra elas. Prefiro honrar, assim como você, o nome [e os valores] herdado do meu pai (é, parece brincadeira, mas aqui meu nome também foi alvo de chacota – Nilton Cezar Geraldino Ferreira). Por outro lado, embora vindo de família extremamente humilde – o primeiro a conseguir diploma universitário -, sempre nutri o sentimento de que, na verdade, o que deve prevalecer é, acima de tudo, a sensibilidade humana.

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  2. É isso aí, ROSIVALDO!

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  3. Parabéns pelo seu artigo, e digo que vc está coberto de razão com relação às pessoas do sul/sudeste, hj moro em uma pequena cidade do interior do Ceará de nome Icapuí e algumas pessoas que vêm da parte de baixo do nosso país fazem severas críticas aos costumes dando a entender que pelo fato de serem costumes diferentes deles são considerados errôneos, errados, equivocados, sem sentido, etc... E eu que há 12 anos estou por aqui posso dizer de todo o meu coração NÃO É VERDADE, costumes são costumes em qualquer lugar do planeta e aqueles que dizem assim: "imagine que eles fazem assim ...hahaha" são pessoas ignorantes e invejosas e lhes faltam cultura.
    Esther orgulhosamente cidadã Icapuiense.

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  4. Parabéns amigo ROSIVALDO!! Conheci de perto a ignorância dos nossos irmãos do sul, quando morei por cinco anos em Curitiba, sempre pensei em lançar um movimento para ajudar essas criaturas tão carentes de conhecimento geral.Para piorar a situação, eles se acham superiores as demais regiões do Brasil, principalmente ao nosso NORDESTE querido, exportador de cultura e Educação! Huascar Simonetti.

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  5. Oi Junior.

    Vou lhe chamar assim pois foi assim que minha amiga Gi lhe apresentou a todos nós. Mas poderia lhe chamar de Rosivaldo - bonito nome, fruto de uma bonita homenagem.

    Fico triste com o que lhe aconteceu. E fico, também, preocupada com algumas questões, a saber:

    Não acho que o chiste tenha acontecido por você estar no sul ou em Porto Alegre. Qualquer brincadeira que possa ter ocorrido com seu nome é muito melhor explicada pela cabeça imbecil de quem o fez do que qualquer comportamento generalizável a um povo ou a uma região. Não acho que você tenha generalizado, mas acho que os comentários e interpretações de algumas pessoas não foram legais.

    Sou filha de um Júlio e de uma Liane e meus pais escolheram meu nome – Juliane, justamente por ser uma junção de ambos. Nesse sentido, ‘juntar nomes’ não me parece exclusividade daqui ou dali. No RS isso é muito comum. No interior ainda mais.

    Sobre os nomes europeus, no RS existem muitos. E também no nordeste. Se aqui sobram sobrenomes alemães e italianos, no nordeste, no Rio e em Florianópolis, estão os sobrenomes portugueses; em Curitiba e em São Paulo estão os sobrenomes japoneses, no interior do Paraná os poloneses e assim por diante. Em Porto Alegre há muitos sobrenomes judeus, no sul do RS sobrenomes espanhóis e palestinos. O brasileiro é uma mistura de muitas raças, todos somos essencialmente “híbridos”.

    Sou descendente de italianos e meu sobrenome é ‘Borsa’ que, em italiano, significa ‘saco’ (isso mesmo!). Ouvi muita piada por conta disso. Numa época em que nem se falava em bullying, eu era chamada de sacola. Então me parece, mais uma vez, que piadas são atitudes individuais e não atribuídas a uma região.

    Como você sabe, sou casada com um nordestino, que também já foi vítima de piadas em relação ao sotaque. Penso que, a despeito das cabecinhas imbecis que existem aqui e em qualquer lugar, o que gera a piada é justamente a diferença. Infelizmente. Das tantas vezes em que estive no nordeste, vários comentários foram feitos sobre meu jeito ‘miado’ (sic) de falar (adquirido em Porto Alegre) e sobre meu forte “ê” ao final das palavras (leitê quentê) - herança dos tantos anos em que vivi em Santiago, pequena cidade da região oeste do RS (onde ninguém “mia” mas onde todos falam “ê”).

    Neste mês estive em Salvador e lá uma pessoa comentou: “Vocês, gaúchos, falam com preguiça”. Aqui em Poa, uma nordestina comentou "o jeito que vocês falam é muito irritante". Eu ri. Talvez por concordar ou talvez pq não me importar. Mas aí essa é a minha percepção e acho que o respeito deve preceder qualquer idiossincrasia.

    Finalmente, queria dizer que entendo que no sul há preconceito em relação a pessoas de outras regiões do país. Mas já vi muito nordestino falar mal do Piauí. Já vi pessoense falar mal de campinense, baiano falar mal de alagoano e catarinense falar mal de gaúcho.
    Pessoas boas e más estão por aí, no mundo. E não podemos generalizar. Fico muito triste quando vejo alguém se referir aos gaúchos como “povo digno de compaixão”, “imbecis do sul”. Foi isso que li em alguns comentários tanto aqui no seu blog como lá no Facebook. Você é uma pessoa muito querida e educada e não imagino esse tipo de comentário vindo de você, mas acho que qualquer texto que, mesmo indiretamente, ressalte diferenças, pode ser interpretado erroneamente por parte de quem já está predisposto a ofender ou desrespeitar. Dado o conteúdo dos referidos comentários, percebo que o bairrismo não é exclusividade dos gaúchos.

    Espero, querido amigo, que sua estada em Porto Alegre seja muito boa. E que você seja sempre acolhido do jeito que você merece, assim como sou acolhida sempre que vou ao nordeste. E que você tenha mais sorte, na próxima vez que pegar um elevador.

    Um forte abraço, pra você e pra Gi, da amiga “paraúcha” e, acima de tudo, BRASILEIRA. Espero nos encontrarmos em breve para outro sushi ou para outro rafting.
    Juli

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  6. Juli,

    Muito obrigado pela mensagem e pelas sugestões. Retirei do Facebook os dois comentários. Já não os havia curtido e colocado explicações logo depois.
    Escrevi o texto também porque acho que é um tema que precisa ser tocado em razão de existir, ainda que pontualmente, em nossas práticas sociais. Infelizmente, nesse caso, ele ocorreu aqui e comigo. Busquei, então, encontrar uma razão para o ocorrido: a falta de alteridade, de conhecimento e consideração da outra cultura, no caso, a nordestina - o que leva ao estranhamento. Fiz, acima de tudo, uma análise social e antropológica.
    Gostaria de ressaltar que fatos dessa natureza não são características do gaúcho. Eles existem, em maior ou menor escala, em todos os povos e implicam, sempre, uma preexistente visão de superioridade, de diferença ou de medo (os judeus, por exemplo, foram discriminados por serem considerados muito espertos, hábeis em enriquecer). Por isso também ocorrem nos exemplos que você deu. Talvez os nordestinos sofram um pouco mais devido ao fato de se tratar de uma região mais pobre. A falácia desenvolvimentista universaliza, lamentavelmente, a superioridade técnica e econômica como superioridade cultural ou pior, étnica. E cria estereótipos. Isso não podemos negar.
    Repito o comentário que deixei no face.
    "Meu escrito não visa realçar as diferenças, mas sim, as identidades, a partir do reconhecimento de que o pluralismo é possível quando se normaliza a perspectiva do que vem de lá. Não busca encontrar a melhor cultura (porque isso implica rebaixar qualquer outra) e nem se basear em estereótipos. Nem é revanchista. Meu escrito é provocativo no sentido de instigar a uma reflexão de como devemos enxergar o outro, como nos identificarmos com ele. Afinal, somos sempre o 'outro' do 'outro'."
    Gostaria, por fim, de ressaltar que estou sendo muito bem tratado aqui, e em todos os aspectos, inclusive culinários: engordando um pouco com esse churrasco maravilhoso!
    Tenho um concunhado que considero um irmão e fiz ótimas amizades. Vocês estão entre elas!

    Um grande abraço pra vocês também. Que venham os muitos sushis raftings!

    Júnior.

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  7. Caro Rosivaldo, sou militar do exército e convivo com pessoas de todos os estados, minha esposa está grávida do meu primeiro filho e um colega me perguntou qual será o nome da criança, imediatamente respondi que seria José Jaime de Oliveira Neto, em homenagem ao meu pai, que faleceu antes do meu nascimento, mas em seu leito de morte pediu que minha mãe não me deixasse faltar os estudos.
    O meu colega me falou que o nome que eu iria dar ao meu filho um nome de paraíba, que a sua esposa considerava esse nome coisa de paraíba.
    Apenas lhe respondi que as diferenças existentes entre as pessoas são criadas por preconceito, atitude de gente desinformada, que vive alienda.
    O inacreditável é que esse colega é natural de João Pessoa, viveu lá boa parte de sua vida e passou apenas dois anos no Rio.

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  8. Olá, Jaime,

    Não é de se afastar, em situações como essa, a ocorrência de um mecanismo de defesa que Freud intitulou de "formação reativa". Renegar as próprias origens pode ser uma foma de defesa que visa evitar a identificação indivíduo exatamente como membro da camada oprimida. É como o disfarce do larápio que grita "pega ladrão". É análogo ao mecanismo da projeção. Só que ao invés de projetar no outro as próprias características, visa ressaltar uma diferença inexistente (pois, no fundo, identifica-se com a "vítima" da formação reativa).
    Um filme que retrata bem isso é o "Tolerância Zero" (The Believer, 2001). Vale a pena assisti-lo. Assim, poderá compreender melhor o que pode estar passando em uma situação como essa. A formação reativa é proporcional ao grau de opressão social. É típica em regimes totalitaristas. Mal sintoma para o Brasil...

    Abraço.

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  9. Olá Dr. Rosivaldo!

    Morei no Sul tempos atrás, em Santa Rosa, e lembro muito bem desses tipos de comentários sobre os brasileiros, então, as vezes os gaúchos não se sentem brasileiros. Certa vez uma pessoa indagou-me se no Nordeste(sou Nortista) tinha torta (bolo), ou seja, se tinha padaria por aqui, visto que eles pensam que aqui é a selva. Eles não separam o Norte do Nordeste, pensam que é a mesma região, que coisa hein? Enfim, foram quase quatro anos ouvindo piadinhas sem noção. Abraços!! Cleonice Braga

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  10. Nem sou da área de Direito, mas gosto de vir por aqui, ter o prazer de aprender e refletir com e sobre o que você escreve.

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  11. Como cearense do interior do Cariri, da pequena Brejo Santo, e hoje radicado no Norte (Rondônia), senti-me sobremaneira identificado com seu relato, mormente no que pertine aos chistes em relação ao sotaque.
    Rosivaldo, seu nome é digno de todos os louros; ele encerra todos os belos valores aqui humilde e poeticamente postos. Como diz seu conterrâneo: “O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”.

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