Por trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem, igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e sonhos.

10 de abril de 2014

A violência do consumismo



Muito se tem reclamado de um suposto aumento dos crimes contra o patrimônio, em especial, roubos e furtos. Dá-se a isso o nome de violência. Considero a violência algo muito mais amplo e já escrevi sobre isso (aqui). Quero, neste escrito, fazer uma reflexão sobre o papel do consumismo nesse cenário. E será que somos só vítimas ou, incluo-me, também agentes propagadores de uma cultura paradoxal, contraditória, de um modo de existência baseado no egoísmo, individualismo e desconsideração do outro?
O consumismo faz uma mágica às avessas. Transforma o sapo em príncipe. Converte em necessidade o desejo de algo que é supérfluo em qualidade ou quantidade. O problema é imenso porque o desejo é da ordem da falta. Nunca se sacia. E não se engane: a propaganda consumista atinge todas as camadas. Seduz, corrói, corrompe. É muita ingenuidade não perceber que um Nike ou um Ray Ban são tão desejados na periferia quanto na Zona Sul.
Para a propaganda consumista, o céu é o limite. E há limite? Sempre estão à disposição o crediário, o parcelamento do cartão ou o cheque especial. No capitalismo financeiro consumista as instituições que monopolizam a agiotagem – eufemisticamente chamadas de bancos – estão sempre a postos para promover nossa (in)felicidade. Sorria, você foi fisgado.
O lema de nossa sociedade é: "só é quem tem". É o que diferencia ser um indivíduo (um outro qualquer) de ser uma pessoa, o marginal do homem de bem. Não se trata de uma questão de cidadania (que implicaria em igualdade, dignidade e efetiva participação na vida coletiva), mas de consumismo. Sob uma ótica consumista, a desigualdade é algo naturalizado pela capacidade de compra. Só somos iguais na medida em que a propaganda nos hipnotiza e nos despertar o desejo de consumir.
O lugar de cada um é estabelecido a partir da imagem. Imagem é tudo(?). Os valores perdem sua dimensão ética e se limitam a um conteúdo econômico. Que fazer para ser alguém em uma sociedade que valoriza o ter em detrimento do ser e que propaga isso a todas as camadas, indistintamente?
Saciar o desejo travestido de necessidade torna-se, pretensamente, uma questão de sobrevivência. Atinge da base ao cume da pirâmide social. Às elites, próximas ao poder, resta manipular o capital econômico e financeiro e os recursos oriundos do Estado. Portanto, esses recursos, que deveriam servir para conter as desigualdades, terminam por assegurá-las. Os meios de aquisição e manutenção do capital pelas elites se legitimam, se normalizam, porque o olho da lei está no rosto delas – como diz Ernst Bloch.
Às massas despossuídas resta: a) aceitar a sobrevivência em uma vida de não-pessoa, como um relés indivíduo da periferia – com todos os riscos e consequências em que isso implica; b) fugir da realidade nas drogas lícitas ou não – para aliviar a dor da constatação da desvantagem competitiva; c) revolucionar; d) buscar nas fendas do sistema, burlando-o criminosamente ou não, o modo de ser uma pessoa, de cumprir o valor maior dessa sociedade: o de ter. Morre-se e mata-se pelo desejo do ter-ser.
Mas não basta ter, advirto. Tem que ostentar. Ostentação. Com rock ou com funk.
Como a propaganda enfeitiça todos, a solução para evitar a revolta dos indivíduos, dos despossuídos, dos que não são pessoas numa sociedade de consumo, é barrar o desejo. Segurança Pública neles para reforçar a exclusão.
O mote da elite na civilização consumista é: “faça o que eu mando e não o que eu faço”. E as ordens dadas são: “não tenha” (ou melhor, não seja - lembra que só é quem tem?); “não deseje como eu desejo”; “a cada um o que é seu” (melhor dizendo, meu. Só meu. Mas somos todos iguais, lembra?). Há um problema civilizatório dos grandes aí. Seremos capazes de resolvê-lo?

*Rosivaldo Toscano dos Santos Júnior é juiz de direito no RN, membro da Associação Juízes para a Democracia - AJD e do Conselho de Direitos Humanos da Associação dos Magistrados Brasileiros - AMB

GOSTOU? COMPARTILHE

6 comentários:

  1. Espelho espelho meu. Diga se existe algo mais belo...que eu compro!
    Parabéns meu amigo pelo "retrato falado" (digitado...) da doença do consumismo. Já estou repassando. Grande abraço. Tarciso Tavares Tato

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Parabéns pelo texto ! São reflexões necessárias .Esse modo de produção capitalista torna essencial aquilo que é supérfluo , e torna old fashion o que foi produzido semana passada,,,

      Excluir
    2. Caro Rosivaldo,
      Achei sua análise sobre a sociedade de consumo coerente, até o limite fatual que é exatamente no bojo desta sociedade capitalista que vivemos e viveremos por muito tempo. Pareceu-me que sua crítica exige uma certa utopia pra se enxergar uma solução pra isso que está aí. Eu vivo atualmente na França que apesar de mais igualitária, tem sofrido enormes pressões do capital internacional pra "corrigir" as benesses dum socialismo que já foi compatível com a pujança européia dos anos 50 a 70. Hoje vê-se aqui uma grande decadência de valores humanistas e uma clara capitalização da saúde e da educação. Contudo, nada comparado ainda com os despautérios cometidos por nós brasileiros nesses assuntos.
      Mas a pergunta que fica. Acha você que num mundo que será cada vez mais urbano (70% da população do planeta viverá em cidades em 2030), temos uma alternativa para o modelo de consumo? Como criaremos empregos fora de uma sociedade de consumo? E se o consumo não for a tônica, de onde surgirá essa consciência econômica e ecológica?

      Excluir
    3. Caro Rosivaldo,
      Achei sua análise sobre a sociedade de consumo coerente, até o limite fatual que é exatamente no bojo desta sociedade capitalista que vivemos e viveremos por muito tempo. Pareceu-me que sua crítica exige uma certa utopia pra se enxergar uma solução pra isso que está aí. Eu vivo atualmente na França que apesar de mais igualitária, tem sofrido enormes pressões do capital internacional pra "corrigir" as benesses dum socialismo que já foi compatível com a pujança européia dos anos 50 a 70. Hoje vê-se aqui uma grande decadência de valores humanistas e uma clara capitalização da saúde e da educação. Contudo, nada comparado ainda com os despautérios cometidos por nós brasileiros nesses assuntos.
      Mas a pergunta que fica. Acha você que num mundo que será cada vez mais urbano (70% da população do planeta viverá em cidades em 2030), temos uma alternativa para o modelo de consumo? Como criaremos empregos fora de uma sociedade de consumo? E se o consumo não for a tônica, de onde surgirá essa consciência econômica e ecológica?

      Excluir
  2. Olá Dr. Rosivaldo, já acompanhava anonimamente seus artigos do blog faz um bom tempo, apesar de não ser estudante de Direito. Desde que vi a história de "Davi Lorso", que me serviu de inspiração para estudar e não aceitar a realidade que nos é imposta, venho lendo seu blog. Eu e meus amigos, estudando para concursos, fizemos um debate a respeito da estabilidade no serviço público. O ponto de partida era: "qual a interferência da estabilidade na prestação dos serviços públicos?" Gostaria de uma opinião sua a respeito do assunto. Obrigado. Luan Nascimento. Natal-RN.

    ResponderExcluir

IDENTIFIQUE-SE E FIQUE À VONTADE PARA COMENTAR. SOMENTE COMENTÁRIOS ANÔNIMOS NÃO SERÃO ACEITOS.